(texto elaborado por José Ouverney em 21.11.2013)
 (Veja mais textos do autor em http://www.falandodetrova.com.br/ouverneyconverso)

 

Malas feitas, conferidas,
pronto: dezembro chegou!
Rumo às férias merecidas,
vou reservar o meu voo!
 
Façam o mesmo, vocês
que este meu texto ora leem,
pois vacilei, da outra vez,
e acabei ficando sem...

 
            Tenho procedência mineira. Minha família, pelo lado materno (avós, bisavós) é oriunda da “terra do trem”.  O que talvez não me autorize a brincar com algumas expressões típicas, mas vou me atrever, mesmo correndo alguns riscos, rs.
 
            Há muitas piadas a respeito de expressões, tais como: “oncotô, proncovô, Belzonte, pincumel”, etc.  Isto é, consta que o mineiro da gema costuma acelerar a pronúncia e emendar as palavras, formando um apanhado curioso e engraçado de novos vocábulos.
 
            E há, ainda, aqueles que, mesmo não sendo mineiros, gostam de também dar uma “aceleradinha”.  O mestre Antonio Augusto de Assis, nascido em São Fidélis/RJ e residente em Maringá/PR  costuma dizer que o saudoso Aparício Fernandes lhe dizia sobre determinado trovador, para quem a contagem silábica não era problema. O referido defendia a seguinte tese: “a medida do verso é questão de velocidade”. E dava exemplos “convincentes" como este, em que o último verso, para se tornar “setissílabo”, exigiria apenas ser dito bem rapidinho:

Apaixonei-me por ti,
meu amor, meu coração,
assim que te conheci 
na procissão do padroeiro São Sebastião!

 
            Agora surge outra questão envolvendo um verso do Assis.  Segundo ele, o verso:  “o voo para a liberdade” contém sete sílabas e não oito.  O mestre defende-se, alegando que “voo” possui uma sílabas apenas, e não duas.  Seria ditongo e não hiato, visto que é pronunciado como "vou".
 
            A questão se torna mais complexa quando lembramos que, em concursos de trovas realizados pelo Brasil, cada avaliador julga conforme a sua visão do que é correto ou deixa de ser.. Ou seja, aquele “Decálogo de Metrificação” elaborado por Luiz Otávio e um grande grupo de colaboradores, há sei lá quantos anos, jamais foi reestruturado, atualizado.  Como, de resto, a própria União Brasileira de Trovadores – UBT.  Continuamos respirando os mesmos ares de cinquenta ou sessenta anos atrás.  Embora o "Elucidário Métrico", de Eno Teodoro Wanke, pregue, à sua página oito, que o correto é "vo/o", assim como "Sa/a/ra", "ve/em", etc.
 
            Penso que já passou da hora da UBT Nacional (segundo sugestão do próprio Assis) formar uma Comissão altamente gabaritada e definir de vez essas questões métricas que têm eliminado (ou deixado de eliminar) tantas trovas em tantos concursos, apenas porque uma pessoa, por pensar de um jeito diferente das demais, acaba mudando os rumos de um resultado.
 
            Até a questão da rima merece uma atualização.  O sistema arcaico de avaliar a correção das trovas costuma ser exigente de um lado e omisso de outro.
 
            Não estou afirmando que o “voo” do Assis esteja correto.  Aliás, discordo, porque ao pronunciar “vou, enjou, destou”, estaremos alterando não só a métrica como também a rima do verso, caso a palavra esteja no final do mesmo.  E teríamos que começar a rimar também “creem, veem leem” com “também, quem, alguém”, etc.
 
            E, já não bastara os tormentos acima citados, de vez em quando uma comissão formada por, no mínimo, cinco avaliadores, analisa conteúdo, rima, métrica e... deixa passar alguma trova com erro de concordância.
 
            Com efeito... Estamos precisando mudar muitas coisas.  Ou, ao menos, torná-las mais claras, para que a Trova continue a manter seu padrão de credibilidade.
 
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EM TEMPO = tenho comentado isso há muito tempo, com muita gente.  Mesmo sendo voto vencido, em minha opinião, em todo concurso de trovas, depois de apurados os trabalhos vencedores, independentemente de haver professores na comissão que avaliou, antes de sacramentar os resultados, um outro professor de língua portuguesa, sem ligação alguma com o concurso, deveria fazer uma minuciosa revisão final.  Não creio que seja pedir muito.