Dizem que brincar com fogo é perigoso porque podemos acabar nos queimando. Mas o trovador, de um modo geral, é um abusado por natureza. Adora desfilar suas saudáveis irreverências através dos setissílabos que lhes soam tão familiares.

     Para não fugir à regra, também dou meus pitacos de vez em quando. Relendo, por exemplo, esta belíssima trova do imortal Mestre IZO GOLDMAN:

A saudade não me poupa,
desenhando, fio a fio,
o perfil da tua roupa
no guarda-roupa vazio…

lembrei-me de um amigo que acabara de separar-se. A esposa partira, levando quase todos os móveis da casa, entre eles, um guarda-roupa que lhe era de um valor sentimental inestimável. Pertencera a seu avô. Veio-me, então, à memória a vontade de fazer algo replicando a trova do Izo. Que ficou assim:

Se a saudade a ninguém poupa,
no meu caso foi além,
desenhando, além da roupa,
o guarda-roupa também…

     Para não perder a viagem, brinquei até com a trova do "Príncipe da Trova" Luiz Otávio, que escreveu esta preciosidade:

O mar nos deu a receita
de um viver sábio, profundo:
sendo salgado, ele aceita
as águas doces do mundo!

Minha réplica ficou assim:

Quero ver se o inverso fosse
(é versão mais complicada):
sendo, o mar, só de água doce,
aceitaria a salgada?...

     E quando vi esta trova abaixo:

Eu fiz um pacto secreto
com Jesus, Nosso Senhor:
deixar o Céu sempre aberto
a quem for bom trovador!

de autoria de J. GASTÃO MACHADO, pus-me a lembrar daqueles tantos irmãos de sina, com os quais a Dona Inspiração não foi tão generosa. A eles (quem há de saber se não estou também no meio?) eu alerto, caso a Divindade resolva fazer “jogo duro”:

Quem não for bom, fique pronto,
pois terá, de modo inglório,
que disputar, ponto a ponto,
as vagas no Purgatório!…

 

     Ei, trovador, quer testar a sua inspiração? Replique você também a trova de alguém. Se não lhe der fama, ao menos poderá lhe dar alguma dor de cabeça. E a perda de uma boa amizade, rs.
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texto de José Ouverney, publicado em 21.02.2013