STRIKE!
     Confesso que sou um tanto avesso a concursos de trova com temas que homenageiam lugares ou figuras históricas. Para mim, a Trova é poesia como é qualquer outro tipo. E os temas-homenagem não são naturalmente poéticos: são circunstanciais, efêmeros, episódicos... A Poesia, por outro lado, é atemporal. Na maior parte das vezes, nos temas-homenagem, as pessoas acabam por repetirem-se umas às outras e o resultado cai em uma mesmice tal...

     Apesar do risco, há figuras que merecem ser lembradas e, nisto, o Luiz Antônio Cardoso foi muito feliz ao escolher para o “I Concurso de Trovas do Salim” o tema “MONTEIRO LOBATO”.

     Monteiro Lobato foi um homem múltiplo, um escritor de grande talento e de grande importância para a Literatura Brasileira. As múltiplas facetas de Lobato foram perscrutadas com bastante competência pelos trovadores do Vale do Paraíba.

     José Ouverney, com o lirismo que lhe é peculiar, fez dos personagens lobatianos os personagens do seu sítio interior:

Visconde, Emília, Marquês,
Dona Benta, Narizinho!....
- Há sempre um “Era uma vez...”
nos sítios do meu caminho...

     Angélica Villela Santos perscrutou o fundo do baú do “mago” e se lembrou de um livro que há pouco tempo foi resgatado, “O Presidente Negro”:

Qual um mago foi Lobato
que em suas obras previu:
Presidente negro é fato
e o petróleo aqui surgiu!

     A questão do petróleo, que lhe rendeu grandes dissabores e prisão durante o Estado Novo, foi muito bem rememorada por João Paulo Ouverney:

Foi herói, foi escritor,
– dizer, com certeza, eu posso –
De quem, para um ditador,
gritou: - o petróleo é nosso!

     Em tempos de corrupção endêmica e de ética esgarçada, Monteiro Lobato – mesmo morto há 61 anos – nos dá uma lição eloquente. Por causa de Getúlio Vargas, Lobato retirou sua candidatura à Academia Brasileira de Letras quando sua eleição estava praticamente garantida. Não queria sentar-se ao lado de quem o mandou prender. Ah... nossos políticos de hoje, com suas alianças espúrias...!      No fundo, apesar de várias conquistas, Lobato era um homem triste. Foi incompreendido pelos modernistas; não logrou sucesso permanente como editor e acabou falido; perdeu dois filhos, Edgar e Guilherme...      E essa alma triste foi fotografada com muita elegância por José Valdez de Castro Moura:

Lobato: sacis... pigmeus...
Sua memória persiste!
- Quantas crianças, meu Deus,
havia num homem triste!

     É por isto que atribuí a este texto o título de “Strike!”. No boliche, o “strike” ocorre quando o jogador, num lance de sorte e de talento, acerta os dez pinos de uma única vez.

     E, nesse respeito, o Luiz Antônio Cardoso, fez um belíssimo “strike” ao homenagear Monteiro Lobato.

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Prof. Pedro Mello, 30 anos de pura explosão de emoção e talento, é integrante ativo da UBT São Paulo/SP e ativo colaborador deste site.