UM ROUXINOL CHAMADO DOMITILLA BORGES BELTRAME  

          Nascida em Minas Gerais, Domitilla há muitos anos reside na capital paulista. Conheceu a UBT na década de 80 e desde então, “abduzida” pela magia da Trova, tornou-se uma Trovadora de renome em todo o país, produzindo intensa e belamente.

          Quando entrei na UBT – Seção São Paulo em 1997, Domitilla era a Presidente da Seção já há algum tempo, cargo que ocupou até 2006, quando fez de Selma Patti Spinelli sua sucessora no comando da Seção. Atualmente é Vice-Presidente de Finanças da Seção e Presidente da UBT – Estado de São Paulo, em sucessão a José Valdez de Castro Moura.

          Recentemente, em uma reunião, Selma chamou Domitilla de rouxinol, em alusão à sua voz doce, afinada e delicada como cantora. , de fato, como um rouxinol, Domitilla nos encanta com o tom diáfano e delicado de suas trovas. Uma de minhas trovas preferidas de “saudade” é de Domitilla.Na minha humilde opinião, contém um dos melhores “achados” que já vi, sentir saudade da própria saudade:

Depois do agrado, é verdade,
apressado ele partia...
Mas hoje tenho saudade
da saudade que eu sentia...

          E por falar em saudade, Domitilla é dona de metáforas de notável sutileza e encantamento, ao nos envolver na sua atmosfera de saudade:

Quando a lembrança me invade
no porto da vida – e quanto!
- brilha o farol da saudade
sob a neblina do pranto!

Eu ergo a taça a brindar
a noite que o quarto invade
e, no cristal do luar,
bebo o vinho da saudade!

Com altivez, disse um dia:
- “Ir procurar-te? Jamais!”
Mas a saudade vadia
não respeita o “nunca mais”...

Quando a vida, num desmando,
fecha a porta da esperança,
vem a saudade, arrombando,
as janelas da lembrança !...

Li teu bilhete: "Lembranças!".
E, na emoção que me invade
um carrilhão de esperanças
desperta minha saudade !  

          E esta que não fica a dever a nenhuma das trovas antológicas que conhecemos e tanto amamos:

Vem a noite e, sem tardança,
esta saudade se espalma
e acorda tua lembrança
adormecida em minha alma !

        Nem sempre, porém, a palavra “saudade” aparece claramente em um dos quatro versos, embora se insinue nas entrelinhas:

Vou carregar vida afora
esta dor que mortifica,
por eu não ter tido agora
coragem de gritar: Fica!

Em minha varanda, a sós,
vendo os ganchos na parede,
eu choro a falta dos nós
que amarravam nossa rede!

Eu não te esqueço e confesso:
No calvário da lembrança,
teu corpo ficou impresso
no sudário da esperança!...  

         Como percebemos até aqui, Domitilla Borges Beltrame é uma trovadora de intensa vocação lírica e, nesse lirismo envolvente, sua pena abre um leque de sensações, falando de sentimentos profundos, como nas trovas a seguir:

Minha mágoa se retrata
neste porto... Junto ao cais,
pois, na espera, me maltrata
o medo do “nunca mais”...

Para o encontro dos amantes,
o dia cerrou o olhar,
mas, indiscreta, em instantes,
a lua veio espiar!

Sou um pecador confesso.
Do teu castigo a alguns passos,
um só favor eu te peço:
- Crucifica-me em teus braços!...

Nossa união, em verdade,
é assim perfeita, eu suponho:
tu és sol da realidade.
Sou lua, carrego o sonho !

O nosso amor escondido,
sem promessa de aliança,
tem o sabor proibido
da fruta da vizinhança!...

"Voltarei" dizes depressa
num agrado à despedida;
fica comigo, a promessa
e em tuas mãos, minha vida!

Que murmurem, não me importa ...
Pecado, nossos abraços?!
Deixo o mundo além da porta ,
faço meu céu em teus braços !

           Conforme vimos, Domitilla é intensamente lírica. Em dados momentos, porém, Domitilla consegue um efeito poético que poucos conseguem: um entrecruzamento de gêneros, em trovas que são líricas e filosóficas ao mesmo tempo:

No alento para viver
mergulhando em teu olhar,
sou como um rio a correr
na eterna busca do mar...

Brigamos, mas a tormenta
em instantes se desfaz;
um grande amor sempre inventa
um arco-íris de paz!...

          É claro que o lirismo “incorrigível” de Domitilla cede lugar a trovas sentenciosas, filosóficas, que são Poesia em estado puro, além de inegáveis lições de vida:

A nossa fé é a virtude
que nos dá tanto otimismo,
que deixa ver, da altitude,
a flor nas trevas do abismo!

Procure espalhar, na vida,
alegria em sua estrada,
que a alegria dividida
é sempre multiplicada!  

         O talento poético de Domitilla se reparte, e a filosofia e o lirismo se fundem em trovas pictóricas, que representam verdadeiras aquarelas em quatro versos:

Rasgando o ventre da serra
num parto de luz e cor,
o sol vem brindar à terra
numa oferenda de amor!

Assim banhada de lua,
em um silêncio encantado,
a velha matriz da rua
guarda o perfil do passado!...

          Dificilmente algum de nós riria ouvindo o cantar de um pássaro, principalmente diante de um rouxinol. Mas Domitilla é um rouxinol eclético. Também nos brinda com trovas humorísticas de bom gosto e bem construídas. As trovas a seguir, ambas premiadas em Nova Friburgo quando o tema era livre, nos revelam um senso de humor que também não deixa a desejar aos mestres do gênero, sendo a última simplesmente perfeita!:

Em Lisboa, zero grau
anuncia o aviador.
- "Que bom, exclama o Lalau,
não é frio nem calor!"

O marido agonizante,
insistindo quer saber :
"- Fui traído ?" E ela hesitante:
"- E, se você não morrer?!"

           Domitilla publicou um livro de trovas, chamado “Trovas, gotas de ternura”, atualmente esgotado. Apreciando de relance sua poética, somos levados a concluir que é um privilégio termos nas hostes da UBT uma Trovadora de tamanha grandeza. Esperamos sinceramente que ela continue produzindo maravilhas como estas que lemos aqui e que o nosso Criador lhe dê anos de vida, saúde e inspiração!