RADIOGRAFIA DO ACHADO

      O que faz de uma trova um poema antológico, conhecido de cor por dezenas de trovadores (ou merecedor de tal), e de outra uma nulidade digna de cair no olvido?          

      Quase todos os trovadores conhecem esta trova de Durval Mendonça, que obteve o merecidíssimo primeiro lugar nos V Jogos Florais de Nova Friburgo em 1964:

Ao beijar a tua mão,
que o destino não me deu,
tenho a estranha sensação
de estar roubando o que é meu...

      O que faz desta trova uma obra inesquecível? Pensemos, primeiramente, na incrível simplicidade estrutural. Para quem acha a poesia algo esotérico, hermético, eis aqui um contra-exemplo mais do que concreto: não estamos diante de uma linguagem sofisticada apesar do aspecto formal – uma trova. Os versos em redondilhas maiores, por outro lado, não a identificam com o cancioneiro popular, o que em princípio pode soar paradoxal: nem popular, nem sofisticada. Um equilíbrio “sui generis”: um poema simples sem ser simplório, ao mesmo tempo em que sua imagem é inusitada.

      Pode alguém roubar, furtar, apropriar-se indevidamente... daquilo que já é seu? Ou, pelo menos, daquilo que ele julga ser seu? Estamos diante de um magnífico paradoxo, sem dúvida, o que a torna um poema digno de atenção. E, por falar em atenção, o detalhe das rimas – terminações comuns –ão e –eu, que não deixam margem para o emprego de formas exóticas ou impensadas: –ão, terminação típica de substantivos ou de adjetivos no grau aumentativo, evoca palavras de emprego comum, tais como as utilizadas pelo poeta: mão/sensação; –eu, terminação também abundante, é desinência marcadora da 3ª. pessoa do singular do pretérito perfeito dos verbos de 2ª. conjugação e também é a terminação dos pronomes possessivos meu, teu, seu, como de fato aparece nos versos 2 e 4: deu/meu.

      Quando falo das rimas, não evoco a classificação tradicional de “ricas” ou “pobres”, porque isto não se sustenta em uma análise mais profunda – se pensarmos no nível discursivo do poema, não é a categoria gramatical das rimas um indicador de “riqueza” ou “pobreza”. Inclusive, “pobreza” e “riqueza” de quê? Ao contrário, como bem atesta a trova de Durval Mendonça, a categoria gramatical a que pertencem as rimas não quer dizer nada, seja pelo aspecto meramente fonético (não há terminação melhor do que outra ) seja pelo semântico (o significante não se sobrepõe ao significado ). Refiro-me às rimas porque elas estão perfeitamente empregadas pelo autor: não há em nós uma sensação de palavras soltas ou de uma sonoridade artificial, forçada, como sói acontecer em versos medíocres.

      Evidentemente, por ser uma forma fixa, a trova requer a metrificação e a rima. A tentação de um poeta sem talento é o emprego de rimas per si. Esse é o que eu chamaria de pecado original, o mau início para quem constrói um verso. Claro que a palavra “construção” pode causar calafrios em alguns, mas não é isto que a metrificação pressupõe? O ato de construir, edificar, dar acabamento, lapidar? Não pense um “modernoso” desavisado que a poesia moderna abdica destes valores, ao contrário. Leia João Cabral de Melo Neto e tire suas próprias conclusões.

( 1- No monumento da Língua Portuguesa, que é o poema épico “Os Lusíadas”, Camões emprega centena de vezes a terminação –ADA. Acredito que ninguém, sem sã consciência, veja nisto um demérito para o autor... O que importa não é a rima em si, mas o que o autor faz com ela...)

(2- Uso aqui propositalmente dois termos da lingüística – significante e significado. Tais termos foram amplamente discutidos pelo lingüista suíço Ferdinand de Saussure, considerado o “pai” da Lingüística, enquanto o conjunto das Ciências da Linguagem. Em termos simples, significante é a parte material de um signo, no caso o signo lingüístico, se pensarmos em termos de “palavra” ou “vocábulo”. Significado é a idéia representada pelo significante. Este binômio proposto por Saussure é o que compõe um signo. Tomemos como exemplo a palavra maçã. A palavra “maçã”, m-a-ç-ã, é o significante. A imagem mental que fazemos da fruta constitui seu significado. O signo é o todo, é a junção do significante com o significado. )

      Voltando à questão da rima, os dois pares – mão/sensação e deu/meu – estão logicamente concatenados entre si e entrelaçados à idéia de abandono e solidão a que aludem o poema. Visualizamos o cenário – o homem (porque é o homem quem beija a mão da mulher e não o oposto) reencontra a mulher amada e, gesto de amor incondicional, beija-lhe a mão mesmo que esta (a mão, metonimicamente a mulher) esteja com outro. Dizemos “esteja” porque a mulher (e sua mão!) pertencem ao enunciador, i.e., o eu-lírico, e não ao seu rival. Por que afirmamos que há um rival? Porque o Destino não lhe deu a mão da mulher amada, e a sensação de roubar algo só pode acometer quem não possui aquilo que supostamente rouba. Supostamente rouba, ao mesmo tempo em que, no íntimo, a tem como sua: roubar aquilo que é seu. Mas como pode roubar aquilo que é seu? Porque, no fundo, não é seu. E é nesta contradição que reside o achado desta trova.

      A palavra “achado”, conforme empregada em nosso idioma para se referir a uma idéia ou expressão original, é tradução da palavra francesa “trouvaille”, que tem, na língua francesa, o mesmo sentido da equivalente portuguesa e remonta à Idade Média. Da mesma raiz de “trouvaille” vem trovador, trovadorismo, e, modernamente, trova.

      Etimologicamente, portanto, trova por si só encerraria um “achado”, o que nem sempre é verdade. Mas o exemplo que analisamos contém um achado. Podemos inferir que “achado” é algo inusitado, diferente, original, diametralmente oposto ao clichê, chavão ou lugar-comum. Esse foi o “achado” de Durval Mendonça: uma idéia original, literalmente, “roubando o que é meu". E sempre que qualquer um de nós se deparar com um achado saberá identificá-lo prontamente – um paradoxo, uma metáfora, uma hipérbole, uma metonímia, um eufemismo... enfim, um tropo ou figura de estilo, artisticamente bem empregado, que dá à trova o status de Poesia, na mais perfeita acepção do termo.

( 3- Recomendo a leitura do poema “Catar feijão”, um dos mais conhecidos poemas de João Cabral, em que ele fala, metalingüisticamente, do processo da escrita. O primeiro verso “Catar feijão limita-se com escrever” é bastante sugestivo. Leia o poema!!! )

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PROFESSOR PEDRO MELLO é membro da U.B.T. São Paulo.