Lembranças da Rádio Friburgo - I

(Singela homenagem ao inesquecível Aloysio Chaves de Moura)

 

     A Rádio Sociedade de Friburgo foi fundada por Aloysio Chaves de Moura, José Eugênio Müller e Carlos Scherman. Estes dois últimos eu não conheci, mas tive a honra e a grata satisfação de conhecer Aloysio de Moura. Apesar do seu jeitão, a muitos parecendo antipático, grosso, era um homem excepcional, amável e extremamente humano.

 

     Eu era garoto quando o ouvia comandando seu programa de variedades, entre 13h e 15h30, mais ou menos, cujo nome não me recordo. Mais tarde, quando a emissora foi transferida para sua nova sede, no Edifício Comércio e Indústria, o programa passou a chamar-se “Rádio Cipó Sempre Amiga”. Antes, a rádio funcionava num sobrado, na Praça Getúlio Vargas, em cima do Restaurante Majórica (já extinto). Havia um auto-falante que transmitia a programação da emissora aos freqüentadores da praça, inclusive os motoristas de Táxi que faziam ponto ali em frente. Eu era um dos freqüentadores da praça, mas a trabalho, engraxando sapatos. Tinha uns 11 anos, mais ou menos.

 

     Durante o programa, Aloysio apresentava curiosidades, falava com ouvintes ao telefone, transmitia cultura e entretenimento, realizava entrevistas interessantes com personalidades públicas e artísticas, promovia concursos diversos, enfim, fazia um programa agradável e útil. E foi em seu programa que tomei conhecimento do movimento em torno da trova em Friburgo, naquela época no alvorecer dos Jogos Florais, acabando por me interessar pelo assunto, apesar da pouca idade.

 

     Cheguei a participar de alguns concursos, quando a emissora ainda funcionava na Praça Getúlio Vargas. Levava minhas cartinhas pessoalmente, sendo atendido pela simpática recepcionista e secretária Luzia Damas Cardoso, grande amiga, de quem mais tarde seria padrinho de casamento.

 

     Estive presente à inauguração da nova sede no Edifício Comércio e Indústria. As novas instalações eram excelentes e o equipamento o que havia de melhor na época. Fiquei deslumbrado. E sonhando. Sonhando com a possibilidade de trabalhar ali. E fui para casa pensando nisso. Mas o tempo passou e somente dois anos depois meu sonho realizou-se.

 

     A vontade de trabalhar na rádio, nascida naquela tarde em que eu visitava as novas instalações da emissora, não tinha sido fruto de uma simples empolgação. Ficou me corroendo por dentro e eu resistindo. Também era muito tímido. Como poderia chegar até lá e dizer o que pretendia, o que desejava? Mas um dia, não resisti e fui. Assisti ao programa “Rádio Cipó Sempre Amiga” todo, sentado no fundo do auditório, escondido atrás de algumas pessoas presentes. Mas o Aloysio me viu e me perguntou se queria falar com ele. Disse que não, que estava apenas assistindo ao programa. Saí dali fulo da vida comigo mesmo. Por que não disse que queria sim falar com ele? Mas como? No ar? Jamais.

 

     Em casa, peguei papel e caneta e escrevi uma carta, demonstrando meu interesse em fazer parte do quadro de funcionários da emissora. No dia seguinte, bem cedo, deixei a carta com a Luzia e voltei correndo para casa. E esperei ansiosamente o programa. E não é que ele leu minha carta?! Elogiou-a, achando-a bem escrita e me convidou para ir falar com ele no dia seguinte. Com o coração aos pulos, fui, mas cheguei, propositalmente, no final do programa e esperei-o na recepção. Quando ele saiu do auditório, interpelei-o, dizendo quem era e ele foi logo dizendo: “Por que não entrou, para conversarmos no ar?” “Fiquei com vergonha”, respondi. Ele riu e me convidou a entrar em sua sala. Conversamos por todo aquele fim de tarde. Ou melhor, ele conversou comigo. Eu apenas ouvia. Falou-me de sua paixão pelo rádio, contou como tudo começou, as dificuldades, falou de política, de viagens (adorava viajar), de copas do mundo, de olimpíadas (comparecia a todos esses eventos, onde quer que se realizassem). Por fim, quando a noite já ameaçava cair, perguntou: “Então você quer trabalhar aqui, na rádio. Você entende alguma coisa de rádio?” “Não”, respondi, “mas quero aprender”. “É, a rádio tem sido uma escola para muita gente”, completou e foi dizendo os nomes de profissionais que começaram ali: Edmo Zarif, Kleber Moura, Carlos Rosemberg, Benito Di Paula e tantos outros. E emendou: “Mas não temos vaga. Como vou poder te ajudar?” Pegou o telefone, perguntou por alguém, mandou chamar essa pessoa, assinou alguns papéis... “Vamos ver o que podemos fazer.” E eu apreensivo. Entra um rapaz alto. Ele me apresenta a esse rapaz. “Esse rapaz quer trabalhar aqui. Ele vai vir amanhã de manhã aprender a operar o som. Você fica incumbido de ensiná-lo. Amanhã às seis ele estará aqui. Pode ir.” O rapaz saiu e ele, dirigindo-se a mim: “Volte aqui depois de amanhã. Vamos ver como você vai se sair.”

 

     Voltei. Era Sexta-feira. Havia treinado nas duas manhãs anteriores e, apesar de ainda estar inseguro, ele me deu o emprego. Passei a trabalhar na técnica, como operador de áudio, das 19h às 24h. Foi o começo de minha carreira na área de comunicação. Mais tarde passei a ser locutor também. Depois, acumulei a função de discotecário para aumentar meus proventos, tendo como professora a inesquecível Mirtes de Oliveira. Aprendi muito de música com ela, principalmente MPB.

 

     Minha passagem pela Rádio Friburgo foi curta, mas foi um grande aprendizado. Eu tinha pressa de ganhar o mundo e alcei vôo cedo. Lembro-me que quando pedi demissão para ir para o Rio, Dr. Aloysio chamou-me à sua sala e me disse: “Você sabe bem o que está fazendo? É a troca do certo pelo duvidoso. Eu sei que você é capaz, mas mesmo assim vou fazer um negócio com você, vou lhe dar férias. Tire um mês de férias, mas como se estivesse desligado da rádio. Vá para o Rio e tente. Se der certo, tudo bem, mas se não der, você volta e retoma seu lugar.” Fiquei boquiaberto. Era uma atitude paternal. Eu jamais esperei isso dele, apesar de saber de sua estima e consideração para comigo. Aceitei sua sugestão, mas tudo deu certo e não precisei voltar. No dia em que me despedi dele, desejou-me boa sorte e ainda brincou, referindo-se à minha noiva na época, “valerá à Penha essa mudança?” Respondi-lhe com um sorriso: “Acho que sim.”

 

     Voltei a Friburgo algumas vezes, mas só tornei a encontrá-lo alguns anos depois. Conversamos no auditório, fora do ar, claro. Mostrou-me fotos de seus filhos, de seu novo casamento, cheio de orgulho de sua nova família. Nessa época eu estava morando no estado de Minas Gerais, mais precisamente no Triângulo Mineiro. Foi um reencontro saudável. Tornei a vê-lo tempos depois, às vésperas de mais uma de suas viagens ao exterior, para alguma copa ou olimpíada. A última vez que o vi foi pela TV. Era Copa do Mundo, 1998. Ele apareceu no Globo Esporte, sendo homenageado como o brasileiro que mais compareceu a copas do mundo. Foi uma grata surpresa vê-lo e a homenagem que recebia era mais do que merecida. Prometi a mim mesmo assim que fosse a Friburgo procurá-lo para conversarmos. Aloysio era um bom papo. Mas não deu tempo.

 

     É, meu caro Aloysio, acho que valeu a pena tudo o que aconteceu em minha vida. Muitas coisas, boas, ótimas, às vezes nem tanto, mas eu não costumo contabilizar os momentos tristes ou difíceis. Aprendi muita coisa pelos caminhos que andei. Acho que evoluí um pouco. E, neste trem da vida, foi muito importante termos compartilhado por algum tempo o mesmo vagão. E como escreveu o grande poeta português, Fernando Pessoa, “tudo vale a pena se a alma não é pequena”.

 

     E, para quem não sabia, saiba agora que Aloysio foi um grande trovador. Trovas suas, inclusive, foram publicadas no livro “Meus Irmãos os Trovadores”, de Luiz Otávio, marco inicial do movimento em torno da trova, iniciado em Friburgo com os Jogos Florais.
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JOÃO COSTA  é delegado da UBT em Saquarema/RJ. 
(postado em 31.07.2011)

 

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