Muito se tem pesquisado e escrito sobre Língua Portuguesa nas melhores universidades do Brasil e alguns pesquisadores se têm destacado neste sentido.

          Uma das mais destacadas correntes de pesquisa do momento é uma área muito profícua (e polêmica) chamada Sociolingüística Variacionista. Apesar do nome aparentemente complicado, não é uma ciência “esotérica”: A Sociolingüística é o ramo da Lingüística (nome genérico da Ciência que estuda a Linguagem), que estuda a relação entre a língua e a sociedade.

          Embora os estudos do suíço Ferdinand de Saussure, no início do século XX, tenham chamado a atenção para esta relação, foi somente a partir dos anos 50 que este aspecto passou a ser estudado com maior profundidade, tendo como pioneiro o lingüista norte-americano William Labov (1927), professor da Universidade da Pensilvânia, que publicou um trabalho sobre o Inglês não-padrão falado pelos negros norte-americanos. Voltada à pesquisa do fenômeno da variação, a sociolingüística tem sido mal-interpretada por estudiosos mais conservadores: visto que a sociolingüística não atribui juízo de valor aos aspectos da língua não-padrão, explicando-os cientificamente, muitos têm entendido erroneamente que a Sociolingüística prega o “vale tudo” em questões de gramática e isto simplesmente não é verdade.

          Acontece que a sociolingüística tem combatido aquilo que seus expoentes denominaram “preconceito lingüístico”, isto é, o conjunto de atitudes, opiniões e valores que usam a língua como fator de discriminação social. ---Afirmações do tipo “brasileiro não sabe falar português”, “pessoas sem instrução falam tudo errado”, “Portugal é o lugar onde se fala melhor a nossa língua”, “a língua portuguesa vai mal” e outras do mesmo tipo, além de falaciosas, contribuem para a discriminação social: as pessoas que falam “errado” são vistas como inferiores e, não raro, são alvo de chacota por aqueles que se julgam “defensores do idioma de Camões”. De fato, há um padrão de língua que nos é ensinado e que precisamos, como falantes, estudar e cultivar. É a chamada “norma culta”. Por que esse estudo? Toda e qualquer sociedade estabelece valores e códigos para seu funcionamento, algumas vezes explícita, outras implicitamente. A língua, enquanto fator de comunicação, é um contrato social: todos nós precisamos da linguagem para nos comunicar com outras pessoas e o idioma é o código comum que utilizamos para isto.

          No entanto, toda e qualquer língua sofre variações. Tais variações podem ocorrer num tempo e espaço nem sempre demarcáveis, mas perceptíveis: é evidente que um gaúcho usa expressões desconhecidas para um nordestino do sertão de Pernambuco. Um adolescente faz uso de um vocabulário muito distinto de um idoso de 80 anos. Um médico usa expressões desconhecidas por um analfabeto.

          Tais variações são perfeitamente naturais e inerentes a qualquer língua. Não somente a Língua Portuguesa, mas a Francesa, a Espanhola, a Inglesa, a Italiana, a Inglesa, a Russa, a Alemã... todas sofrem variações mais ou menos sensíveis dependendo de fatores extra-lingüísticos, como o grau de escolaridade de seus falantes ou a sociedade em que estão inseridos.

          O conhecimento da norma-culta, o padrão-língua, não dá, entretanto, o direito de uma pessoa zombar de outra devido ao seu desconhecimento de fatos gramaticais: até o falante mais culto que possa existir não faz uso de uma linguagem “castiça” em todas as ocasiões e, não raro, “escorrega” sem perceber.

          Sem nos alongarmos nesta questão, a que nos referiremos em texto futuro, vamos exemplificar: Um falante mais escolarizado e, portanto, culto, debocha de um semi-analfabeto que diz, imaginemos, “Os hômi chegou”, porque o culto é “Os homens chegaram”. Pois bem, suponhamos que o mesmo falante culto seja um palmeirense ou um vascaíno roxo. Na TV, ele assiste a uma partida do seu time. Tal falante em uma situação de descontração entre os amigos diz tranqüilamente “Eu assisti o jogo ontem”, em vez de “Eu assisti ao jogo ontem”. Não é um “erro” de concordância, mas é um “erro” de regência. E agora, qual é a diferença em termos gramaticais? Nenhuma. E em termos sociais? O prestígio de um falante e o estigma do outro.

          Não estou defendendo o “vale tudo”. Situações de formalidade exigem linguagem formal. Linguagem formal é sinônimo de normal culta. Apesar disso, precisamos cultivar uma atitude de tolerância pelas diferenças e procurarmos elevar o nosso espírito, nos despojando de qualquer tipo de preconceito, inclusive o lingüístico.
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03.06.2008