POR QUE JOÃO FREIRE FILHO É JOÃO FREIRE FILHO (texto de Pedro Mello)

     A UBT de Pouso Alegre, assim como outras, têm o gesto de dar aos seus troféus o nome de grandes vultos da Trova e da UBT. O patrono do troféu, na solenidade dos Jogos Florais, é saudado pelo patrono do ano seguinte através de uma belíssima palestra. Em 2007 o homenageado de Pouso Alegre foi o Mestre João Freire Filho, sem dúvida um dos Cardeais da Trova brasileira. Quem o homenageou foi Selma Patti Spinelli, da UBT São Paulo, nominadora dos troféus de 2008 e, durante sua comovente homenagem, ela o chamou de “Mestre João Freire”.

     O epíteto não se deve apenas ao fato de JFF ser Professor de Português aposentado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Mestre, conforme sabemos, vem do latim magister, substantivo de segunda declinação, que possui o sentido de homem douto, de grande e notório saber, o que, de fato, João Freire Filho é. Na realidade, JFF é Mestre em um sentido especial além do de Professor: sua Poesia é magistral, incrivelmente bela, dotada de um encanto que poucos conseguem transmitir através das quatro correntes constituintes desta linda cadeia que é a Trova.

     Já nos referimos, em texto anterior, à questão do que é o “Achado”. Nenhum mistério, pelo que analisamos através da sobejamente conhecida trova de Durval Mendonça, “Ao beijar a tua mão...”. Pois bem, João Freire Filho possui uma poesia transbordante, viva, pulsante, de um lirismo arrebatado e, ao mesmo tempo, catártico.

     No ano de 2007 ele nos ofereceu um apanhado de sua colheita poética, enfeixado no livro “Entre Achados e Perdidos”, que – a partir do título de duplo sentido – nos presenteia com achados poéticos, perdidos nos livros de concursos e jogos florais e que ele resgata para o nosso deleite.

     A Poesia de JFF dispensa adjetivos, porquanto o seu próprio nome é o Adjetivo, o melhor qualificador para uma obra excepcional.

     Poucos poetas conseguiram dar vazão ao sentimento amoroso com a elegância lingüística de João Freire Filho. Uma Trova que chama atenção pelo primor e, ousamos afirmar, pela inveja que causaria em nomes célebres da Língua Portuguesa, é a que aparece à página 107:

Angústia é saber que ainda,
envelhecidos meus traços,
você continua linda...
e – o que é pior – noutros braços!

     Esta Trova dói na alma da gente. Parece que somos transportados para o íntimo do Poeta, num achado que – se não é uma autoconfissão – certamente é a confissão de muitos de nós que viveram um grande amor e passaram pela desventura retratada pelo Poeta. É por esta razão que dissemos há pouco que a Poesia de JFF é marcada por um lirismo catártico e, provavelmente, esta é uma de suas maiores virtudes. Todos nós somos tomados por um sentimento de igual Angústia, Dor, Ansiedade, Solidão ou Saudade ao lermos as Trovas de João Freire.

     Na Trova que usamos de exemplo, sentimo-nos em sua pele: é como se também nós estivéssemos encanecidos, encontrássemos a Amada depois de muitos anos e aquela “dorzinha de cotovelo” nos fizesse enxergar em seu rosto a mesma mulher de anos antes, só que – desta vez – com outro homem. Um sentimento que nos remete a Lupicínio Rodrigues: “Eu só sei que quando eu a vejo, me dá um desejo de morte ou de dor...”

     Embora a Trova em questão não chegue ao extremo lupiciniano, é evidente que, àqueles que passaram por situação semelhante, a sensação é muito próxima...

     -A Poesia de JFF é muito original. Mesmo falando de coisas simples e retratando situações quotidianas, como no exemplo supracitado, consegue fazê-lo de modo a fugir do lugar-comum, que é o seu grande mérito. As Trovas de João Freire Filho falam muito da Saudade da Mulher Amada, como se todas as Trovas se referissem à mesma personagem, à mesma “Musa” e é impossível qualificar qual seja a “melhor”. Cada um que ler JFF terá as suas Trovas preferidas e gosto, afinal de contas, é algo arbitrário e idiossincrático, sujeito às inclinações de cada leitor.

     Mas algumas Trovas se sobressaem ao lermos o livro, como se, entre “achados e perdidos”, elas emanassem luz própria e, de própria vontade, quisessem chamar nossa atenção.

Amor! Ao nosso passado
estou preso eternamente...
Saudade é laço apertado,
cheio de nós... no presente!

     Parece que estamos escutando uma das canções de Frank Sinatra... Parece que esta Trova, com seu surpreendente jogo de palavras, é um tributo a uma Ava Gardner do bardo carioca...

A saudade é dependência...
É meu vício, em tal medida,
que você se fez a ausência
mais presente em minha vida!

A saudade não permite
nem que eu sonhe um novo amor...
Tua lembrança é um limite
que eu não consigo transpor!

A saudade, sem disfarce,
me faz sonhar de tal jeito,
que ainda sinto deitar-se
tua nudez... no meu leito!

Ah!... Relógio, os meus agoras,
sem ela, são sempre assim:
- Quanto mais bates as horas...
mais bate a saudade... em mim!

Em minha casa deserta,
que um dia foi nosso lar,
Saudade é porta entreaberta
deixando a Esperança entrar...

Sem ter você ao meu lado,
em meu leito há dor de sobra...
Dobro os lençóis do passado,
mas a saudade me dobra!

     É difícil falar de quem é sinônimo de TROVA, assim mesmo com maiúsculas, e que engrandece este grande movimento chamado União Brasileira de Trovadores. E, tão difícil quanto falar a seu respeito, é escolher suas Trovas mais significativas. Nesta consideração ficam faltando outras, muitas até filosóficas, outra faceta de seu talento. Seja como for, fica aqui registrada nossa homenagem e responde-se à questão que intitula este artigo: Por que João Freire Filho é João Freire Filho, um dos maiores Trovadores de todos os tempos, que muito enobrece o planeta com a sua presença e com o seu indiscutível Talento. Terminamos com uma de suas jóias mais conhecidas:

Por tudo que me tem dado...
Pelo riso, pelo pranto...
Destino! Muito obrigado...
Nem sei se mereço tanto!

     E talvez nem mereçamos um Espírito tão iluminado entre nós...