(texto do Prof. Pedro Mello)

 
             Pense um pouco: você sabe o que os ex-presidentes Fernando Henrique e Lula têm em comum? Ambos foram eleitos sem nunca terem sido prefeitos ou governadores. Fernando Henrique foi deputado federal, senador e ministro da Fazenda, mas nunca administrou a cidade de São Paulo ou o Estado. Lula foi deputado federal, mas tampouco foi prefeito ou governador. Foram bons presidentes? Não vem ao caso. O que importa é a liberdade que a democracia brasileira ensejou: puderam postular suas candidaturas, milhões de brasileiros votaram e os elegeram para dois mandatos consecutivos.

             Todos os brasileiros podem votar e escolher seu governante; do mais politizado ao mais tosco eleitor, todos têm o mesmíssimo direito. Se muitos optam pelo não-comparecimento às urnas ou votam em branco ou nulo, isso também não vem ao caso: trata-se igualmente do exercício de um direito fundamental.
Não consigo deixar de comparar o Brasil com a UBT. A UBT foi fundada em plenos anos de chumbo e, coincidentemente ou não, possui uma estrutura autoritária que permanece até hoje. Aliás, nesse aspecto chega a ser espantoso: a UBT está na segunda década do século XXI e ainda não se oxigenou!

            Já falei sobre a escolha do presidente da seção, que se faz por um “referendo” que a entidade chama de “eleição”, mas que de eleição só tem o nome. No plano estadual, a situação é ainda mais desalentadora: só faz jus a uma representação o estado que tiver três seções. Aí, nesse caso, forma um conselho estadual e um presidente estadual. Quem vota? Apenas os presidentes de seção. Nem os delegados têm direito a voto. No plano nacional, o processo de representação é ainda mais afunilado: só podem se candidatar ao cargo de presidente nacional os membros do conselho nacional e os presidentes estaduais. E só eles votam. É uma pirâmide: delegacias e seções na base; seções estaduais no meio; conselho nacional e presidência nacional no topo.

            Claro que a disposição dos cargos não é intrinsecamente um problema. O que causa estranheza em um país livre e democrático é que a democracia, coitadinha, ainda não alcançou a mais notável e importante entidade literária das Américas! Os associados da UBT só podem “referendar” o presidente de sua seção. E só. Não têm direito a mais nada. Somos uma massa sem voz. Os presidentes das seções “referendam” o presidente estadual (geralmente também “candidato” único). Por fim, os presidentes estaduais e os conselheiros também “referendam” o presidente nacional (também “candidato” único). Uso os termos “referendar” e “candidato” entre aspas porque são palavras empregadas no movimento trovista apenas “pra inglês ver”: para mim, não existe eleição de chapa única. É um engodo chamar um processo em que só existe um candidato de “eleição”. É um referendo. E não mais do que isso. A UBT se consolidou ao longo dos anos com base em referendos e não com debates e troca de ideias.

            Seria um sopro de modernização se, algum dia, uma alma iluminada agisse a fim de oxigenar a UBT. Se todos os brasileiros podem eleger seus representantes (vereadores, deputados, prefeitos, governadores, senadores e presidentes) por que os trovadores não podem ter o mesmo direito e eleger os presidentes estaduais e o presidente nacional? Se não agora, quem sabe no centenário ou no bicentenário da UBT?
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   O Prof. Pedro Mello é "Magnífico Trovador" por Nova Friburgo.