O  RECADO  DA  TROVA  (José Ouverney, 27.08.2014. Veja mais textos do autor em http://www.falandodetrova.com.br/ouverneyconverso) 

     Nos festejos que a UBT São Paulo promoveu, nos dias 21 e 22 de julho de 2012, entre inúmeros reencontros festivos, com grande alegria dividi a mesa do jantar com a renomada Marina Bruna, laureadíssima trovadora (além de grande cantora), que acaba de sair de uma delicada situação envolvendo sua saúde, e que ainda se recupera. 

     Entre suas belas composições, uma, especialmente, sempre me vem à memória. É daquelas trovas que marcam, pois abordam de forma muito feliz uma situação aparentemente simples mas que só o poeta consegue focar determinado ângulo. Fala sobre o menino de rua:
(OBS: essa trova foi premiada no concurso de Pindamonhangaba em 2002, tema “Lembrança”, sendo, inexplicavelmente,  apenas a 14ª mais votada, entre as quinze que se classificaram, e só premiando graças à nota DEZ que lhe dei) 

A ciranda traz lembranças
que a saudade perpetua,
de um tempo em que nós, crianças,
éramos todas de rua... 

     Esta leitura me transporta ao final dos anos cinquenta e início dos anos sessenta. Lembro-me que todas as noites as ruas do meu bairro eram uma algazarra só. Brincadeiras de “polícia e ladrão”, “queimada” e outras alegres disputas. Não podia haver coisa melhor!

     Hoje o filme é outro: a “geração internet” se impôs de forma esmagadora e, mesmo que assim não fosse, as ruas já não abrigam a tranquilidade de outros tempos, o que acaba confinando os próprios adultos. 

     Conheço dezenas e dezenas de trovas e poemas em geral, além de crônicas, que falam sobre o “menino de rua”. E o foco é sempre o mesmo: órfãos, abandonados, mendigos, “trombadinhas”, cheiradores de cola, minitraficantes, etc.  O quadro é pintado de forma sombria, para ter perfil de realidade. 

     De repente surge a autora, Marina Bruna e, com sua inspirada e oportuna colocação, descortina à minha frente um passado do qual eu já quase não me recordava.  “Nós, crianças, éramos todas de rua”!  E foi justamente aquele encantamento, aquele permanente contato com estrelas, luares e brisa, aquelas expressões suadas e felizes que aguçaram a sensibilidade de tantos remanescentes de tão privilegiada época.  Ali nasceram poetas, pintores, artistas em geral.  O cenário era propício. 

     Confesso que me emociono fortemente diante destes versos pois, no fundo, nós sempre fomos e sempre seremos “meninos de rua”!  Graças a Deus! 

     Muito obrigado, Marina Bruna!