O QUE É TROVA? - escrito em 26/07/2008

 

     Quantas vezes, em minha infância / adolescência, deparei com versos que muito me agradavam. Cheguei a copiar vários deles em meus cadernos. Humorísticos, românticos... E a gente os chamava de “versinhos”. Por exemplo:

Meu amor por ti (que mágoa!)
se evaporou de repente,
tal se fosse um pingo d’água
caído num ferro quente...
AMÉRICO FALCÃO

     Ou então esta seqüência:

Grita o filho, a esposa berra
e, apesar desse berreiro,
não troco o meu lar em guerra
pela paz do mundo inteiro!
COLBERT RANGEL COELHO

     Essas minicomposições têm o nome de “TROVA”. Só que eu não sabia. Assim como, ainda hoje, a maioria das pessoas alega desconhecimento quando lhes pergunto: - Conhece trova? Elas conhecem, apenas não sabem que o nome é este.

     Quem for pesquisar a fundo essa palavra, descobrirá que já no século XII se falava em trovadores. Mas os conceitos são diferentes. A trova daquela época era sinônimo de cantiga, envolvia instrumentos musicais e, geralmente, os cantadores teciam críticas sociais, embora o lirismo também fizesse parte da pauta. Os trovadores de então são os legítimos antecessores dos nossos seresteiros, ou menestréis.

     Mesmo aqui no Brasil, quando Luiz Otávio teve a idéia de criar e expandir um movimento trovístico, soube da existência do G.B.T. (Grêmio Brasileiro de Trovadores) e a ele se filiou. Com sede na Bahia, seu forte, no entanto, eram os grupos de violeiros ( repentistas) e os cordelistas. Alguns anos depois, aquele que viria a ser consagrado ‘O Príncipe dos Trovadores” se desvincularia do GBT e fundaria então a U.B.T – União Brasileira de Trovadores – órgão voltado exclusivamente para o que se convencionaria chamar de “trova literária”, ou seja: “pequeno poema de quatro versos, com sete sílabas poéticas cada e sentido completo, rimando o 1º com o 3º e o 2º com o 4º”.

     Aliás, a princípio, o 1º verso nem era obrigado a rimar com o 3º. Os I Jogos Florais de Nova Friburgo, em 1960, que tiveram por tema, AMOR, contemplaram com um brilhante 7º lugar esta trova, com rima simples:

Se toda gente soubesse
como custa querer bem,
quanta gente gostaria
de não gostar de ninguém.
OCTAVIO BABO FILHO – RJ

     Até que, alguns anos depois, ela deixou de ser considerada.

     O Vale do Paraíba sempre foi reduto de grandes trovadores. O fato de nenhum deles ter alcançado o status de “Magnífico” até 2008 é meramente circunstancial. Em Taubaté, entre outros, brilharam Cesídio Ambrogi, Dias Monteiro, De Paula Mádia... Em Pindamonhangaba tivemos Lauro Silva, Balthazar de Godoy Moreira e o próprio Orlando Brito – poeta consagradíssimo, falecido em 2010.

     Piquete, Guaratinguetá também tiveram seus representantes. Francisco Portes e Mariinha Mota são apenas dois, entre outros. De Lavrinhas tivemos o extraordinário Vasco de Castro Lima, descendente da nobreza que participou da fundação de Lorena: Conde de Moreira Lima, Barão de Castro Lima e Viscondessa de Castro Lima.  De Cruzeiro, a Maria Idalina Jacobina...

     E ainda hoje a tradição se mantém: Pinda vem realizando, desde 1992, seus concursos de trovas; Taubaté começou em 1965 e continua a todo vapor; Jambeiro também organizou quatro eventos há alguns anos. É uma pena que, em termos de realizações de semelhante porte, fiquemos limitados praticamente a dois ou três municípios.

     Como todo e qualquer movimento, a União Brasileira de Trovadores carece de renovação, reciclagem, novas adesões, sangue novo. Não basta organizar concursos nas escolas ou entidades; é preciso muito mais. Há que se montar equipes de trabalho, interagir com os alunos, professores e poetas em geral, arrumar uma forma de levá-los para a UBT. Caso contrário, como em qualquer segmento, literário ou não, primeiro virá o envelhecimento (que, no caso da UBT, já chegou) e depois, infelizmente, poderemos assistir a um desfecho ainda mais lamentável.

     Ou talvez nem estejamos aqui para assistir...

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                    JOSÉ OUVERNEY    =   O autor do texto é natural de Pindamonhangaba. Bancário aposentado, poeta, voltado especialmente para o gênero “Trova”. Autor do livro de poemas “Brincando de Poeta” e co-autor de outros dois: “E agora, José...s?” e “Trovas Brincantes II”, além de fazer parte de várias antologias. Detém o título de  “Magnífico Trovador”, em Nova Friburgo, desde junho de 2008.