O CACÓFATO

     O que é cacófato? Obviamente não sou professor, nem tenho pretensões de “sê-lo” mas, desde que escrevo poemas ou crônicas, ouço alguém dizer: - cuidado para não cometer cacofonia. E então aprendi que se a seqüência de duas palavras forma, automaticamente, uma terceira, cuja sonância não é lá muito agradável aos nossos ouvidos, eis aí um “cacófato”.

     O assunto veio à baila porque estava eu queimando as pestanas, montando uma trova para concurso cujo prazo de vencimento estava a expirar e então me veio este verso: “Este amor, tão desgastado...”. Olhei bem para o verso, ele também olhou pra mim e... Não é possível: o cacófato estava lá: “mortão”. Desesperado, tentei mudar para: “O amor, já tão desgastado...” Olha lá de novo: “jatão”!

     O que eu faço? Paro de escrever poesias? Lembrei-me, então, que quando a idéia é forte, a comissão julgadora, via de regra, faz que não vê o famigerado inimigo. Em 2006, num concurso-relâmpago, ao transcrever minha trova, percebi: no meu verso “de uma forma tão intensa...” não só havia “matão” mas também “formatão”! Pensei: vou arriscar. E foi primeiro lugar!

     Folheando meus arquivos, descobri também, num concurso realizado em Petrópolis, em 1993, que na trova campeã, tema “Música”, de autoria da consagrada autora Darly O. Barros, também prevaleceu a idéia, que é linda:

A música soa e então,
por um passe de magia,
há só nós dois num salão
onde o mundo inteiro havia!

     “A música soa...” passou de forma despercebida. Ou quase...

     E o que dizer de uma das mais queridas trovas de todos os tempos, de autoria do não menos querido Orlando Brito, até hoje declamada nos salões?

MAR

Passou... Bonita de fato!
E o mar, ao vê-la, tão bela,
sentiu não ser um regato
para correr atrás dela!

     Diante de tão suntuosa imagem, quem haverá de lembrar de um “latão”?      Ah, quer saber? Deixa pra lá, não vale a pena ficar se preocupando com detalhes. Se acaso o deixei chateado com estes arroubos de perfeccionismo, “desculpe então”!