Orlando Brito

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A TROVA

A trova é uma janela para o Sonho

que eu abro quando estou triste e sozinho.

A trova faz o mundo mais risonho,

com ela eu sou feliz no meu caminho.

Tudo cabe na trova: ora o medonho

tombar de um raio, ora o burburinho

do vento, ora um violão meigo e tristonho,

clamor de oceano, sons de passarinho.

Gosto da trova desde aquela data

em que andava a caçar tiés na mata,

armando uma arapuca e pondo alpiste.

Pois hoje, na arapuca de uma trova,

tento prender alguma idéia nova

para ouvi-la cantar, quando estou triste.

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SONETO - MINHA MÃE

Minha mãe era quase analfabeta,

quase nada sabia de leituras,

mas tinha o instinto dessas almas puras

que sabe, entre as ações, a mais correta.

Criou dez filhos, boas criaturas.

fiéis a Deus, de educação seleta.

Sabia ser valente ou ser discreta

nos momentos de dor, nas horas duras.

Os filhos, todos eles, são felizes,

pois ela, não deixando coisa alguma

deixou com seu exemplo, as diretrizes.

Uns herdaram seus olhos, outro, a calma,

outro, seu jeito simples, mas em suma,

fui o mais bem-dotado: - herdei-lhe a alma.

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A VOZ DA TERRA

A terra disse ao homem: -- Fazendeiro,

graças a mim possuis tanta riqueza --

o engenho, a casa, o pão e o vinho à mesa,

o gado e as plantações que dão dinheiro.

Vou, com meus dons, suprindo teu celeiro,

porém não sou sozinha nesta empresa,

pois, num trato que fiz com a natureza,

a chuva é sócia, o sol é meu parceiro.

Mas não te regozijes dessa vida,

pois tal como dás pouso e dás comida

aos bois, que tua fome vão matar,

assim eu te alimento, assim te amparo,

e a cova que na sombra te preparo

é a boca com que vou te devorar.