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“Homologação” de Resultados e Língua Portuguesa”
Dirijo este texto aos irmãos-trovadores que trabalharam comigo na comissão de avaliação das trovas do âmbito local dos Jogos Florais de Nova Friburgo/2026: Alba Helena Correa, Gilvan Carneiro, Paulo César Tórtora e Sérgio Fonseca. Minha intenção é tão somente explicar os motivos que me levaram a solicitar meu afastamento desta comissão, que integro desde que ingressei na UBT-Rio, nos idos de 2005. Ressalvo ainda que ele não tem qualquer intenção de crítica pessoal a quem quer que seja. Individualmente, considero a atual presidente nacional da UBT, como portadora de um notável dinamismo administrativo, sempre envidando esforços para melhorar a qualidade da trova entre nós. Neste sentido, espero que minhas palavras possam ser consideradas como mais uma colaboração à causa trovadoresca, pela qual me empenho diuturnamente com o meu “Comentando Trovas”, já em sua 120ª edição.
Não se trata de contestar o direito legítimo de a UBT Nacional adotar normas rígidas para serem aplicadas aos concursos patrocinados pela entidade, visando a unificar interpretações divergentes sobre o Decálogo de Luiz Otávio ou sobre rimas. Isto reconheço e aplaudo, embora considere que, às vezes, os vetos a trovas ditas “erradas” são comunicados aos organizadores dos concursos de um modo inadequado, causando constrangimento a quem se dedica à difícil tarefa de avaliação. Ao ver devolvida uma trova que avaliou, qualquer julgador (credenciado ou não pela UBTN) sente-se desmerecido em seu trabalho. Conheço casos de avaliadores que nada contestam, acomodam-se, porém se negam a continuar prestando tais serviços de avaliação.
Mas não é sobre possíveis erros de versificação, rima ou métrica, que desejo registrar aqui o meu protesto. Falo é de uma tendência da UBTN de avançar, como última instância irrecorrível, sobre questões gramaticais e certos usos da fala em nosso idioma, impugnando trovas e batendo o martelo em questões linguísticas não pacificadas nem mesmo entre os especialistas no assunto. Neste caso, trata-se de uma inaceitável extrapolação de poder. Não contesto o princípio de que na trova deva ou não ser usada a “norma culta” do idioma, mas acho que os conceitos de “norma culta”, assim como o de “erro”, é que precisam ser urgentemente revistos por quem faz “homologação” de resultados para um gênero literário de origem popular como a trova.
Como exemplo dessa antiga tendência de “legislar” sobre normas do idioma, poderia citar desde o preconceito linguístico contra o termo “trovinha”, o veto ao uso da contração “pra” e a proibição de maiúsculas no início dos versos, tudo sem qualquer fundamentação linguística. Prefiro, no entanto, referir-me especificamente a um assunto que, desde o surgimento do Modernismo, tem requerido a atenção de muitos linguistas: colocação de pronomes oblíquos.
O português brasileiro tem características fonéticas distintas do falar lusitano, e as regras decoradas na escola quanto à colocação de pronomes átonos não são aplicáveis no Brasil, simplesmente porque aqui tais pronomes não são átonos, mas semitônicos. E não vou me alongar sobre o caso, já que este não é o espaço apropriado, mas repito: condenar trovas com base neste assunto é uma extrapolação inaceitável, desmerecedora do trabalho dos avaliadores do concurso, principalmente quando vemos desobedecidas ou ignoradas em muitos resultados “homologados” outras regras gramaticais muito mais importantes como concordância, regência, mistura de tratamento, conjugação verbal etc.
Peço desculpas aos irmãos trovadores por este desabafo, mas entendo que minha idade e o tempo que já dediquei honestamente ao estudo da trova e da língua portuguesa permitem-me esta atitude de não-acomodação. Saudações trovadorescas!
PS:
-Sobre o conceito de “erro linguístico”, recomendo a leitura de um livro adotado na Rede Pública Federal de Ensino:
“A Língua de Eulália” (Novela Sociolinguística), de Marcos Bagno, Editora Contexto, São Paulo, 2014.
-Sobre colocação de pronomes oblíquos, convém ler o poema “Pronominais”, de Osvald de Andrade.
Em 31 de março de 2026, Renato Alves – UBT-Rio de Janeiro.