Cássio Magnani - Santa Bárbara/MG

          Cássio Magnani nasceu em Santa Bárbara/MG. Contador, advogado, oficial da reserva do Exército.

Na prosa publicou, entre outros, "Mina" (romance) e "Imagens do Caminho" (contos). Era radicado em Nova Lima.

A trova, que a dor retrata,

e que enternece e deslumbra,

é como um pingo de prata,

gota de luz na penumbra.

No caminho em que conduzes

tua cruz, na espádua nua,

verás quantos levam cruzes

mais pesadas do que a tua.

Quando a brisa agita o ipê,

com doce e brando rumor,

lá do alto cai como que

uma chuva de ouro em flor.

Na noite morna de agosto,

a lua branca, de prata,

parecia um ovo, posto

no ninho verde da mata.

Caridade - produzir

um fulgor nos olhos baços,

é como distribuir

o coração em pedaços.

Felicidade, impreciso

cintilar no peito incréu;

migalha do paraíso

amostra grátis do Céu.

As irmãs puras e santas

que cuidam dos sofredores,

assim como certas plantas,

não dão frutos, mas dão flores.

Abrevia os dias meus,

dá-me castigos brutais,

porém, pelo amor de Deus,

não me digas: - Nunca mais...

No horizonte esbraseado,

o sol sempre faz das suas;

fica ali, ruborizado,

olhando as montanhas nuas.

Não vê, quem ama o arrebol,

sem esperança e carinho:

o amor é raio de sol

dourando o pó do caminho.

Não desperdices teus dias

a amealhar desse jeito.

Nada levam mãos vazias

que se cruzam sobre o peito.

Saudade, doce desgosto,

sino distante a planger,

sombra esquiva do sol-posto,

fantasma do entardecer.

Pra nós, mineirões da roça,

não há dinheiro que valha

um cafezinho, uma troça,

um bom cigarro de palha.

No leito, em meus braços, nua,

deliciosamente bela,

disse-me a sorrir: - Sou tua!

Desde esse dia, sou dela!

Todo dia, em meu jardim,

uma bandinha emplumada

executa, parfa mim,

o hino ardente da alvorada.

O coqueiro cismador,

com emplumado chapéu,

parece um espanador,

querendo espanar o céu.

Quero mostrar, não há jeito,

quero ocultar - não sei onde.

Como dói, dentro do peito,

um amor que a gente esconde!

Em luminoso improviso,

o alvorecer consistia

num largo e franco sorriso

na cara alegre do dia.

Sobre os fios e de costas,

as andorinhas tão cautas

pareciam, assim postas,

notas musicais nas pautas.

Sou tranquilo deste jeito

só por falta de lugar.

Pus tanto amor em meu peito,

que o rancor não pôde entrar.

À luz intensa do dia,

meus prazeres são escassos.

A noite é que põe Maria,

desnuda e ardente, em meus braços.

No inverno da vida há dores,

frio, tristeza e revolta,

porque morreram as flores

e a primavera não volta.

Conduzem os passos nossos

ao futuro, que é um só:

duzentos e tantos ossos,

que se desfazem em pó.

As conquistas de valor

do homem não foram impostas

pelo punho ameaçador,

porém feitas de mãos postas.

Em vez de chorar, exulto,

nem tens o menor desgosto,

quando os meus beijos sepulto

nas covinhas do teu rosto.

Como as aves da amplidão,

que no alto planam serenas,

não voa o meu coração,

mas, meu Deus, como tem penas!

Eterno amor e amizade

me juraste muitas vezes.

Tua breve eternidade

durou apenas três meses.

No bar da velhice fria,

onde chora a solidão,

o amor é taça vazia,

caída sobre o balcão.

- Sou tua! - ela me dizia.

Devia informar, porém,

a parte que me cabia,

já que era de outros também.