Dorothy Jansson Moretti - Sorocaba

Veja mais de Dorothy Jansson Moretti, acessando:  http://www.falandodetrova.com.br/dorothy

 C A L O R   D O   I N V E R N O

 

Paradoxo? Não sei; mas saio à rua

e o sol é o mesmo velho sol do estio.

Parece que é o verão que se insinua,

reinstalando-se em pleno mês de frio...

 

Ou será que é o inverno que recua

sem querer aceitar o desafio

da massa de calor que se acentua,

exercendo absoluto poderio?!

 

Ombros nus e bermudas desfilando...

Parece praia...os homens observando

a garota bonita, de corpete.

 

E a japonesa, do seu banco alto,

olha atrás... e tem quase um sobressalto

com o tamanho da fila do sorvete!

---------------------------- 

A I N D A   A   P R I M A V E R A...

 

O tempo corre em compasso inclemente,

levando pais, amigos, mocidade;

e um dia percebemos que saudade

é agora a sombra única e presente.

 

Não resistiram à fragilidade

os nossos sonhos bons de adolescente;

e outros, de fase ainda não descrente,

há quanto tempo jazem na orfandade!

 

As estações sucedem-se, entretanto;

não as atinge o nosso desencanto...

Verão, outono, inverno...Ah quem me dera

 

que abrindo essas janelas do passado,

eu sentisse que nada foi mudado

e que lá fora... ainda é primavera!

---------------------------------------​

C A S T R O   A L V E S - de Dorothy Jansson Moretti

            (1º lugar no Concurso de Poesias da Casa do Poeta Maçon do Brasil )

No fundo escuro da noite funesta,

faíscas rompem pelo céu, esteiras

que obedecendo a um ritmo, como em festa,

dançam ao vento, em espirais faceiras.

 

Quem dispara ao negrume, que detesta,

essas fagulhas, pelas mãos certeiras,

é um jovem cuja espada inflama e cresta,

acendendo a mais viva das fogueiras.

 

Gênio gigante de “Navio Negreiro”,

vive pouco, mas, nobre condoreiro,

atinge a crista azul da imensidade.

 

E em seu rasto, a luzir pelos caminhos,

resistindo à investida dos espinhos,

brilha a chama, sem par, da Liberdade.

................................................................................................

F O L H A S   E S P A R S A S    (de Dorothy Jansson Moretti)



Quando a tarde ao cair, toda dourada,

lenta transmuda em gradações cambiantes,

sinto minha alma, sensibilizada,

afinar-se ao sabor dos tons mutantes.



E os versos que componho em tais instantes

assumem cor ardente ou desmaiada:

vivos, do leve Alegro aos sons vibrantes,

tristes, do grave Adágio à dor velada.



São notas desprendidas da sonata,

dispondo um clima de jovial Cantata,

ou da Pavana o sufocado grito.



São folhas soltas, pelo vento esparsas...

Verdes ou murchas, voam como garças,

deixam meus sonhos no azul do infinito.

-------------------------------------------------------------



V E N T O D E O U T O N O    (de Dorothy Jansson Moretti)



Da tarde ao tom sombrio me abandono,

e um clima estranho vem-me dominar.

Eu não sentira que já era outono,

nem precebera meu verão passar.



Agora o vento, em arrogante entono,

maltrata as folhas mortas a tombar,

mesclando-as pelo chão, sem lar, sem dono,

órfãs dos ramos nus a se agitar.



Também meus sonhos tombam lentamente

aos desenganos que os batem de frente,

nem mais resiste uma ilusão, agora.



E o vento torce a haste enrijecida

da flor despetalada e ressequida

de uma esperança que restou, de outrora..

-------------------------------------------------------

        UM OLHAR SOBRE SOROCABA   (de Dorothy Jansson Moretti) 

Em pleno ciclo de tantas tropeadas,

quer de mulas, ou quer também de bois,

Sorocaba levanta as mãos armadas...

Mil oitocentos e quarenta e dois. 

Passa o século. A poeira das estradas              

vai-se apagando e vão florir, depois,              

as lindas laranjeiras carregadas...              

Mil novecentos e quarenta e dois. 

Os ciclos vão-se de outros distanciando...

Do bandeirante ao têxtil se afastando,

a indústria abre, imponente, o seu roteiro. 

E hoje, aos ventos do tempo e seus avanços,              

Sorocaba levanta os braços mansos,              

e torna irmãos... filhos do mundo inteiro.       

............................................................

             M U T A Ç Õ E S    (de Dorothy Jansson Moretti)

 Longe, no céu tão diáfano e sereno,

as nuvens brincam de fazer figuras;

traçam imagens, erguem esculturas,

 vivo painel sobre o horizonte ameno.

 Um cavaleiro em sólida armadura,

na torre de um castelo aguarda o aceno;

além, um monstro a baforar veneno,

aqui,  mansa ovelhinha toda alvura.

 Tal como as nuvens o destino é incerto,

em nossa vida as ilusões se agitam,

juntas, no tempo, às horas de amargura.

 Vento que insufla a areia no deserto,

mas cessa, enfim... e em nossa alma palpitam

os anseios de paz e de ventura.

=============================================

C A U S A   M O R T I S

 

Todo mundo que chegava

ao velório do Candinho,

penalizado, falava:

- Morreu como um passarinho.

 

            Um bebum que ali se achava,

            curioso, entre o burburinho,

            a cada passo escutava:

            - Morreu como um passarinho.

 

Chega alguém que, comovido,

pergunta-lhe ao pé do ouvido:

- De que a morte foi causada?

 

            E o bebum, em tom de prece:

            - Também não sei, mas parece

            que foi de uma estilingada.

===================================================

          P E N A   M OD E R N A

 

Vejo em álbum antigo um cromo desbotado:

uma pena bonita, as franjas reviradas,

imersas num tinteiro em formato quadrado

e ao lado as folhas de papel semi-enroladas.

 

Insinua-me à idéia um poeta debruçado

sobre um velho birô de bordas desgastadas,

tecendo num soneto o seu verso inspirado,

fina caligrafia, letras caprichadas.

 

E eu, com pena me acerto às coisas que mudaram

por esses anos tais, que apáticos rolaram

sem que lhes importasse a transição sofrida.

 

Mas meu computador é uma “pena” que acalma,

e ao passar-lhe meu verso, eu sinto... até tem alma

esse engenho tão bom, que facilita a vida!

=============================== 

 

            V E L H O   J A R D I M

 

Contemplo, da janela, o antigo jardinzinho

que guarda de uma fase alegre e distanciada

camélias, manacás, e lá no seu cantinho,

uma velha roseira ainda engalanada. 

 

Lembro, na primavera, os junquilhos branquinhos,

jóias de minha mãe, paciente e delicada,

que gratos retribuíam-lhe os ternos carinhos,

envolvendo-a e a tudo em aura perfumada.

 

Partiu a boa fada... foram-se os junquilhos...

Vivendo de saudade, quais diletos filhos,

camélias, manacás e a rosa solferina,



resistem no jardim, leais e dedicados,

difundindo no ambiente aromas encantados,

a evocar de uma vida a essência peregrina.