João Rangel Coelho

          JOÃO RANGEL COELHO, filho de Teodoro da Silva Coelho e Carmelita Rangel Coelho, nascido em Juiz de Fora no dia 20 de maio de 1897, formou-se em Direito no ano de 1918, pela Faculdade do Rio de Janeiro. "Magnífico Trovador" por Nova Friburgo, em lírico/filosóficas. Pai do também Magnífico Trovador Colbert Rangel Coelho, difícil deduzir qual foi o melhor: ambos foram talentos puros!  Autor dos livros: "Itinerário Lírico e Satírico", "As Báquicas" e "Trovas de um Lírico Irreverente". No Rio de Janeiro, João Rangel residiu à Rua José Vicente, 103, no Grajaú. Faleceu em 1993.

Criança! O medo me invade        (3º lugar Juiz de Fora 1962)

ao ver, ingênuo e profundo,

o teu olhar sem maldade

ante a maldade do mundo.

Nas brancas ruas caiadas,

da terra do sono infindo,

as portas estão fechadas

e todos estão dormindo...

A lágrima é um pingo d'água,

Irizado e transparente:

- A bailarina da mágoa

dançando no olhar da gente.

A vida é onda encrespada

por onde a gente, a nadar,

nada, nada, nada, nada,

até ao nada chegar!

Senhor Deus, ó Pai dos pais!

Por que motivo consentes

entre teus filhos iguais,

destinos tão diferentes?...

Tenho a fibra dos audazes.             (6º lugar em Nova Friburgo - 1974) 

Mas tu, menina, tão mansa,

da minha fibra é que fazes

teu brinquedo de criança.

Senhora, que tenho em mira!

Por amar-vos, para ter-vos,          (Menção Especial em Nova Friburgo - 1974)

em vez das cordas da lira,

tanjo as fibras dos meus nervos!

As  reticências, com a gaze       (8º lugar Nova Friburgo - 1973)

de sua móbil perícia,

são bailarinas da Frase,

para o ballet da Malícia..

Marejaram pequeninas

nos seus olhos rasos d’água,    (10º lugar Nova Friburgo - 1973)

três lágrimas cristalinas:

- As reticências da Mágoa...

Há no silêncio das plantas,      (9º lugar Nova Friburgo - 1972)

a germinar pelas leivas,

o grito de mil gargantas,

numa algazarra de seivas.

Há presente, em minha sorte,      (17º lugar Nova Friburgo-1971)

uma angústia indefinida...

Não é bem medo da morte;

é, talvez, medo da vida!

Nas ânsias insatisfeitas

dos mais frustrados esforços,      (19º lugar Nova Friburgo-1971)

certas angústias são feitas

com retalhos de remorsos.

Aérea, fluída de gaze,

corpo volátil de essência       (1º lugar Nova Friburgo - 1970)

sua presença era quase

como se fosse uma ausência.

O mar imenso e profundo                     (9º lugar Niterói - 1964)

vai gemendo, sem parar...

Todo gemido do mundo

geme no fundo do mar!...

Toda saudade consiste

neste contraste evidente:            (Nova Friburgo - 1961)

uma alegria tão triste

numa ausência tão presente.

A chuva embala quem sofre...

Quando chove como agora,

a gente abre um velho cofre,

lê velhas cartas e chora...

Mesmo na treva mais densa,

seu estro tais luzes leva

que, trovador de nascença,

a trova lhe trava a treva.

A tua mão cor de neve,

frágil lírio delicado,

pousou na minha, de leve,

para este adeus tão pesado!

Numa alegria incontida,

sou bem feliz, porque ponho,

na taça escura da vida,

o claro vinho do sonho!

A justiça imaculada,

tendo no céu as raízes,

não pode ser acusada

dos erros dos maus juízes.

Sendo o amor uma batalha,

sentimos que, em sua trama,

não há vitória que valha

a rendição de quem ama.

Para consolo da gente,

na vida, luta que cansa,

há uma vitória latente

dentro de cada esperança.

TROVA DE HUMOR

Maria Clara não poupa

gastos com a moda. Morou?     (10º lugar Nova Friburgo - 1975)

E vai gastando com roupa

o que, sem ela, ganhou...

"Todo animal é imperfeito!"

Afirma o José de Tal.

(Só o homem, no seu conceito,

é que é um perfeito animal.)

Jacó, judeu que se baba

por mulher feia, argumenta:

- Com o tempo, a beleza acaba,

porém a feiúra aumenta...

O mundo! Dele me escondo

com pudicícia e recato.

Dizem que o mundo é redondo,

mas está ficando chato...

O cura de Santarém

é milagroso de fato:

os afilhados que tem

são-lhe o perfeito retrato...

O eletricista Zé Roque,

que só na Light produz,

levou um tremendo choque

quando a mulher deu à luz...

Ana e Ari, gente africana,

se uniram junto ao Niassa.

E dessa dupla: Ari-Ana,

foi que nasceu nossa raça...

Creio que o noivo da Anita

é muito feio - Jesus! -

pois, sempre que ele a visita,

ela logo apaga a luz...

Aqui repousa, sem tédio,

esse doutor eminente,

porque tomou o remédio

que receitara a um cliente...

Das rodas da gente honrada

sempre enxotado como és,

já deves ter calejada

a zona dos pontapés...