MORFOLOGIA DOS PICLES
(texto de Pedro Mello)

 

            Existem muitas receitas diferentes de picles: algumas requerem legumes crus e outras, cozidos. O tempo de reserva varia de um a dez dias. Há receitas em que só vai o vinagre; em outras, os legumes devem ser fervidos em salmoura. Independente, porém, da variação da receita, o objetivo é um só: a elaboração de uma conserva, cujos legumes sejam servidos como petiscos. Embora o pepino seja a leguminosa preferida e em algumas receitas seja a única, a maioria das receitas preconiza picles de vários legumes: pepino, cebolinha, cenoura, couve-flor, brócolis, beterraba... E novamente a variação pouco importa: o resultado é uma conserva em que todos os legumes tenham o mesmo sabor. Assim, o pepino, a cebolinha, a cenoura, a couve-flor... todos eles têm o mesmíssimo sabor, estejam crus ou cozidos. E o responsável por isso é o ácido acético do vinagre.
 

            Em sociedade todos nós sofremos pressões (ora tácitas, ora frontais) para termos um mesmíssimo padrão. Ou seja, todos nós somos “preparados” para ser picles. Essa preparação começa em nosso primeiro grupo social: a família. Um membro diferente é logo chamado de “ovelha negra” e sofre pressões (na maior parte das vezes castradoras) para ser igual aos outros e assumir uma mesma “postura” ou linha de conduta. Se a questão envolvida for a sexualidade, então, nem se fala! Um jovem homossexual, por exemplo, não raro apanha e sofre ameaças duras dos pais que não se “conformam” com a orientação sexual daquele que é “diferente” dos outros, naturalmente héteros... O segundo grupo imediato é a religião. Na religião também todos “precisam” e “devem” ser... picles: um adepto que discorda da orientação que recebe no púlpito ou de algo que seu líder ensinou (seja em âmbito comportamental, seja em âmbito doutrinário) dificilmente será aceito sem reservas,. Se for um pouco mais inteligente, escolarizado, então... ou fica de escanteio, ou acaba saindo porque o ambiente não o favorece; a não ser que seja cooptado pelas lideranças para ter um cargo, um excelente meio de se “amoldar” e “entrar na linha”. De qualquer jeito, o vinagre igualitário sempre entra em ação.
 

            Em uma sociedade igual à brasileira, de democracia recente e, portanto, ainda embrionária, o diferente raramente é bem visto. As pessoas não são criadas ou doutrinadas com o direito à individualidade. Como temos uma tradição de governos autoritários e repressivos, manifestar uma opinião diversa ao que é comumente aceito representa um risco à sobrevivência. Podemos constatar isso pelos processos contra a imprensa: jornalistas são a todo momento processados. E geralmente o embasamento legal é sempre o mesmo: “calúnia” e “difamação”. Pelo simples ato de expressar uma opinião que desagrada a alguém. Lembro-me, por exemplo, de tempos atrás quando o SBT se desagradou da TV Cultura porque um jornalista criticou o trabalho da pequena Maísa. Esse não é um caso isolado. Há poucos dias, a revista Veja divulgou que o ex ministro e deputado José Dirceu (PT-SP) está hospedado em um hotel de Brasília fazendo lobby e prestando “consultoria” a personalidades que ocupam cargos públicos. A reação do ex ministro e de outros correligionários foi uma só: a revista foi acusada de “invadir” a privacidade dele, como se não tivesse direito de noticiar um fato que parece irregular por envolver funcionários públicos de primeiro e segundo escalão do governo federal. Falando em Veja, a coluna de Diogo Mainardi era folclórica justamente por isso: suas opiniões ácidas incomodavam muita gente e o jornalista foi alvo de dezenas de processos, sempre com o mesmo embasamento jurídico: “calúnia” e “difamação”. Mais um sofrendo pressão do vinagre igualitário para ser picles: baixar a cabeça e parar de criticar os poderosos.
 

            Sempre há os “credenciados”, donos da verdade e do direito de fazer parte de uma cúpula, aqueles que tomam decisões sem precisar de consultar quem os conduziu, ignorando que só existem por causa destes. Entretanto, a base da pirâmide, que poderia fazer valer seus legítimos direitos, se omite e se acomoda. Nossa classe política, por exemplo, legisla de modo irresponsável, aumenta seus próprios vencimentos descaradamente e tudo fica como está. Na maioria das cidades, as câmaras dos vereadores passam o tempo criando datas comemorativas e batizando ruas. Milhares de pessoas se mobilizam em paradas gay, em marchas evangélicas ou até pela liberação da maconha. Mas por que milhares de pessoas não param as ruas pelo fim da corrupção? Um modo de melhorar nossa representação política é o voto distrital. Por que no Brasil isso ainda não existe? Porque elegemos quem se beneficia da baderna? Por que as pessoas votam em sindicalistas, religiosos, artistas, oligarcas...? Por que as pessoas votam em canalhas que se perpetuam viciosamente... mas paradoxalmente têm vergonha da classe política que as representa? Por que os dias de eleição são sempre lamentáveis?
 

            É a morfologia dos picles: todos sofrem a ação do “vinagre”, adquirem o mesmo sabor, e tudo fica igual ao que sempre foi.

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Prof. Pedro Mello é Magnífico Trovador por Nova Friburgo desde 2009.