MARIA THEREZA E EU     

 

            Amo a trova desde que me conheço por gente. Garoto da roça, década de 60, tinha pouco acesso aos livros, mas devorava todos o que me caíam às mãos.  Li e reli muitas vezes um livro de J. G. de Araújo Jorge, “Cantigas do Só”, e outro, uma coletânea de sonetos, que minhas tias Maria e Marina me emprestaram.  Os livros de Português sempre traziam poemas de autores consagrados do passado.  Eu copiava tudo para um caderno e nunca perdia uma oportunidade de aumentar minha coleção.  Foi então que teve início uma história de amor que começou assim:  Nos armazens da minha pequena cidade, Inajá PR, os vendeiros usavam jornais velhos para embrulhar mercadorias.  Eu os amofinava vasculhando as pilhas de jornais sobre o balcão. O que eu procurava?  Uma coluna que se intitulava: “TROVAS – por Maria Thereza Cavalheiro”.  Quando encontrava, disfarçadamente surrupiava a folha, dobrava e enfiava no bolso. Minha coleção favorita!

 

            Passaram-se os anos, já morando em São Paulo e reconhecido como poeta trovador, nunca tirei da mente o nome e o semblante na pequena foto que acompanhava aquela coluna de trovas.  Quem era ela? Seria ainda viva e que idade teria? Será que ainda publicava trovas?  Certo dia, creio que foi em 1986, para minha surpresa, vi o anúncio de lançamento de livro dela.  Havia um telefone para contato. Liguei imediatamente e fui atendido pela Amarillis, que se identificou como prima dela.  Pedi seu endereço para correspondência. Escrevi uma carta, incluindo alguns sonetos e trovas.  Ela me respondeu rápido com uma cartinha amável, na qual elogiava meus escritos e me convidava para o lançamento do seu livro.  Ao chegar, fui recebido pela simpática Amarillis, que para minha alegria se lembrou de mim.  Ela me falou sobre a herança poética das duas, sobrinhas netas de Colombina.

 

            Eu estava ansioso por conhecer Maria Thereza pessoalmente. Ao avistá-la, de cabelos branquinhos, distribuindo autógrafos e sorrisos, fiquei tomado de emoção.

Por algum tempo fiquei parado, olhando para ela e pensando se aquele momento era real.  Em minha imaginação Maria Thereza tornara-se um símbolo, uma deusa da trova, quase que uma personagem que não pertencia ao mundo real.  Mas ela estava ali, bem na minha frente! Custei a crer que fosse a mesma dos jornais velhos, que me inspirou a fazer trovas!  Ela me recebeu com carinho e alegria, valorizou minha poesia, me fez sentir importante.  Desde então, já por uns 25 anos, tenho tido o privilégio de sua amizade e recebido dela consideração especial: cartas escritas à mão como nos bons tempos, entrevista no jornal “O Radar”, uma trova minha ilustrando suas aulas de trova em seu livro “Segredos do Bom Trovar – 1989”, a inclusão de trovas em suas colunas (sempre me envia os recortes), e publicação de diversas trovas minhas nos adesivos das pastilhas Alabarda, o que fez com que uma delas se tornasse bem conhecida e divulgada em muitos sites e perfís do Orkut:

 

Por natureza, enganosa,
meiga e boa – quando quer!
Fogo e gelo, espinho e rosa...
Anjo e demônio: Mulher!

 

            Agora sei mais sobre minha personagem: nasceu em São Paulo, em 1929, poeta desde a infância, advogada, jornalista, tradutora, conferencista, ecologista e escritora, sua verdadeira paixão. Em 11/09/1969, fundou, com a colaboração de Amaryllis Schloenbach, prima e amiga inseparável, a Seção Municipal de São Paulo da União Brasileira dos Trovadores - UBT, a qual presidiu até 1976 (por motivos que desconheço, e sobre os quais não encontrei referências, a UBT seção São Paulo não reconhece esse período e considera sua fundação em 1979, tendo como primeiro presidente Izo Goldman, meu prezado amigo).

             

            Desde 1973, Maria Thereza Cavalheiro tem publicado sua coluna “Trovas” em diversos jornais e revistas da capital paulista. Manteve por mais de 30 anos sua coluna poética no jornal “O Radar” de Apucarana PR, até dezembro de 2009, quando o jornal infelizmente foi extinto.  Desde 2004, em sua coluna na revista “Bali”, do amigo Kleber Leite, Itaocara RJ, continua fazendo o que sempre fez:  trabalhar pela poesia, dando a conhecer poetas e suas obras.  Detentora de inúmeras premiações e colecionando láureas em reconhecimento de seu trabalho, Maria Thereza parece não se importar

muito com a estranha ausência de reconhecimento por parte de algumas elites da trova.

 

            E ela não precisa mesmo! Sua carta de recomendação são seus 64 anos dedicados à causa poética, e todos os resultados conseguidos em favor desta.  Entre tantos outros poetas sou beneficiário de seu trabalho abnegado, feito com amor e carinho, e considero-me seu eterno devedor, por não ter absolutamente como retribuir tudo o que fez e continua fazendo por mim, a não ser com minha gratidão e amizade.  Ela continua muito ativa nos seus 82 anos e certamente ainda contribuirá muito para o crescimento da trova, valorizando o talento de novos poetas e dando exemplo de altruísmo e amor à arte.

 

            Maria Thereza Cavalheiro merece o reconhecimento e o aplauso de todos os poetas do Brasil.  Que Deus a conserve assim por muitos e muitos anos!
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PEDRO ORNELLAS
é músico, compositor e cantor sertanejo, sonetista da melhor estirpe e "Magnífico Trovador" em Nova Friburgo, em abos os gêneros: líricas/filosóficas e humorísticas.

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