Magníficos Trovadores - PEDRO ORNELLAS
PEDRO ORNELLAS: poeta, trovador, sonetista, haicaista, cronista, compositor e intérprete sertanejo, caipira de fato, fascinado pelas maravilhas da criação, reconhecido como um dos melhores trovadores do Brasil, haja visto o título de "Magnífico Trovador" conquistado em ambos os gêneros: lírico/filosóficas e humorísticas.
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Paranaense de Marialva, nascido em 26 de maio, radicado em SP, Pedro é o que os mineiros costumam chamar de "trem bão"!
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LÍRICAS, FILOSÓFICAS E AFINS
Ser mãe, é zombar da fome
nos olhos mantendo o brilho,
ao ver o pão que não come
matando a fome do filho!
Sinto em meu quarto sozinho
a Deus pedindo conselhos
que a gente cresce um pouquinho
sempre que dobra os joelhos!
Se canto a felicidade
sou poeta imaginando...
mas quando falo em saudade
eu sei do que estou falando!
Felicidade é conquista
que a gente persegue em vão...
- Sempre ao alcance da vista,
nunca ao alcance da mão!
Felicidade é uma bola,
que a gente, em tola disputa,
corre atrás enquanto rola
quando para, a gente chuta!
Deixando tristes lacunas (6º lugar Fortaleza 1989 - Duna)
na vida, curta e fugaz,
os nossos sonhos são dunas
que o vento sopra e desfaz...
Da própria lógica zomba
teu olhar quando, inconsciente,
mescla a inocência da pomba
e o feitiço da serpente!
Embora a mesa vazia,
mamãe, que os tinha em fartura,
nunca fez economia
de carinho e de ternura!
Na infância, festa de cores,
tudo era encanto e magia
e eu via muito mais flores
além das tantas que havia .
Musa que inspira e magoa,
sempre um mistério profundo...
a mulher que chora à toa
é a mesma que enfrenta o mundo!
Bendito quem no caminho
plantando o amor entre irmãos
tem mãos que se fazem ninho
para aquecer outras mãos!
Se o erro ficou distante
seja pleno o teu perdão;
não se cobra ao diamante
seu passado de carvão!
Resto do sonho que um dia (Venc. Barra do Piraí 1999)
não previu restos nem fim,
um resto de fantasia
sustenta o resto de mim!
Arranhavam feito espinho
mas me lembro e o pranto cai...
como era doce o carinho
das mãos rudes do meu pai!
A ciência que eu rejeito
é a que tem a insensatez
de explicar o que foi feito
e afirmar que ninguém fez!
O acerto, sim - amedronta!
mas creio que estamos quites:
para os meus erros sem conta
Deus tem perdão sem limites!
Equilíbrio se requer
Entre o QUERER e o PODER;
só pode ter o que quer
quem quer o que pode ter!
De tudo o que já foi dito
resta dizer que a saudade
é um velho poema escrito
com tinta de mocidade!
Novo rumo, despedida...
e ao pressentir minhas dores
a paineira entristecida
chora lágrimas de flores!
Quando, à noite, em quantidade
voltam lembranças de outrora,
eu posso ouvir a saudade
batendo palmas lá fora.
Enquanto dorme a cidade,
teimoso o poeta insiste...
o tema é "Felicidade"
mas o seu verso sai triste!
Na mente novos enredos
roubam do sonho a importância...
e o tempo, estalando os dedos,
quebra a magia da infância.
O meu sonho de criança,
sem causa e razão de ser,
foi mensagem de esperança
que a vida rasgou... sem ler!
O tempo passou depressa
reduzindo meu anseio
de um "antes" que foi promessa
de um "depois" " que nunca veio!
Tem de amor a vida cheia
quem, prezando bons valores,
grava as ofensas na areia,
porém na pedra os favores!
Sobre esses cachos dourados
que a brisa faz ondulantes
a fama do meu Estado
cavalga em terras distantes!
Ciência alguma eu aceito
que ao fazer do mundo estudo
cuida somente do efeito,
negando a causa de tudo!
Hoje letrado e eminente
sondo meu ego e constato
que eu era muito mais gente
quando era "bicho do mato"!
Quando tropeço não ligo,
nestas andanças que faço
Deus olha o rumo que eu sigo
não a elegância do passo!!
É a solidão que em meus braços,
evocando horas distantes,
ocupa agora os espaços
que teu corpo ocupou antes!
Revoada... o dia claro...
Paz e harmonia no mangue!
E de repente um disparo
mancha a paisagem de sangue!
No trigo que amadurece
e a fome ao pobre sacia
vejo Deus que escuta a prece
pelo pão de cada dia!
Pelos trilhos da lembrança,
a saudade é um trem expresso,
que no vagão da esperança
traz a infância de regresso!
Boêmio das madrugadas,
vendo as estrelas me excito;
são garotas debruçadas
na varanda do infinito!
A brisa da noite mansa
que a sala do tempo invade
sopra as cinzas da lembrança
na lareira da saudade.
Saudade, um sonho guardado...
magia que se eterniza
num filme bom do passado
que o pensamento reprisa.
Mãos dadas, de homens armados,
celebram acordos vãos...
se os corações não são dados,
é inútil darem-se as mãos.
A fome, às vezes, batia
e, embora faltasse o pão,
nunca faltou harmonia
na velha casa de chão!
A vida o drama nos deu
de, juntos, vivermos sós...
sendo apenas tu e eu,
e eu e tu não sendo nós!
O acerto, sim, amedronta!
Mas creio que estamos quites;
eu tenho ofensas sem conta..
Deus tem perdão sem limites!
Surpresa boa e ruim,
o amor, que tarde acontece,
faz do meu peito um jardim
que em pleno outono floresce.
Sonhei, criança, o direito
de um mundo melhor, um dia...
Sem ver que o mundo perfeito
era o mundo em que eu vivia!
Nas andanças sê treinado
- fronte inclinada, não andes!
É quando estás encurvado
que os outros parecem grandes!
Este amor, meu pesadelo,
que nego a todos por teima,
por fora é bloco de gelo...
por dentro - fogo que queima!
Por mais que seja aplaudida
não dura a glória farsante
dos que subiram na vida
pisando em seu semelhante!
Ao partir, deixando o norte,
uma lagrima ensaiou...
mas a seca era tão forte
que ate seu pranto secou!
Num gesto de amor profundo, (Belém 1991)
pela santa que tu és,
se eu fosse dono do mundo
depunha o mundo aos teus pés!
Meu pai, colono de raça,
desbravador do sertão,
não deixou busto na praça
mas deixou marcas no chão!
Ouço um tropel de boiada,
olhoa estrada, olho a distância...
Mas o som não vem da estrada,
- é tropel que vem da infância!
TROVAS HUMORÍSTICAS
O garotinho ao credor
que na porteira insistiu:
-Papai não está, senhor...
mandou dizer que saiu!
""Papai saiu..." no portão,
diz Huguinho ao cobrador.
"Vá chamar mamãe, então".
"Também se escondeu, senhor!"
Quando da igreja voltavam
ficou "grilado" o Castilho;
sobre a noiva o que jogavam
não era arroz - era milho!
Na pesca, vendo a "fumaça",
naquela manhã de frio,
grita o luso: "Que desgraça!
Botaram fogo no rio!"
Por capricho do destino,
quando a lambada esquentou,
ouviu-se um tango argentino
e o canarinho "dançou" ...
Na recepção dá vexame
o carcará Zé Diogo,
quando pergunta à madame
se por acaso tem fogo! "
Cobra demais o oculista!"
De queixar-se o Zé não pára:
"Aquele exame de vista
custou-me os olhos da cara!"
Assisto à copa e me zango
vendo a cena inusitada:
Uma só nota do tango
vence as onze da lambada!
Quis arranjar casamento
mas só ganhou do paquera,
no verão, o acampamento...
e um bebê na primavera!
Por mais que me finja nobre,
eis a verdade chocante :
- Rico só lembra de pobre
quando vai fazer transplante.
Na porteira, o João dizia,
ao ver partindo a donzela:
"Se eu pudesse amá-la-ia...
porém não posso amar ela!"
A sogra mal, e o Fernando:
"Há um atalho na avenida!"
a ambulância entrou 'voando'
- e era um beco sem saída'.
Da defunta a dentadura (co-vencedora UBT SP - 2006)
cai... o Zé pisa e se corta...
A sogra é para da dura:
morde até depois de morta!
Querendo ajudar, o Roque,
agiu com boa intenção:
quando leu "Queima no Estoque"!
botou fogo no galpão!
Tenta acendê-lo a "patroa",
mas todo o esforço fracassa.
pois o fogão do coroa
não dá fogo... é só fumaça!
Caiu no riso a brigada
quando o luso trapalhão,
chegou trazendo uma escada
e o incêndio era no porão!
''Quantas vezes foi beijada?"
E ela diz: "Esta é a primeira..."
E bem baixinho, a safada: " ...
este mês, nesta porteira!"
"Vai lá ver se chove ou não" (1º lugar Friburgo 1998 - "Preguiça")
e o filho (também deitado):
"IR LÁ PRA QUE? Chama o cão
e vê se ele tá molhado!"
O pato teve um ataque (co-vencedora em São Paulo - 1992)
quando a casca se partiu;
ansioso, esperava um “Quac!”
e o que escutou foi um – “Piu”!
A situação tá tão feia,
minha grana tão escassa,
que o vizinho churrasqueia
e eu passo o pão na fumaça!
Ando tão ruim de memória
que nem calcula o senhor...
- E desde quando, senhora?
- Desde quando o que, doutor?
