LOUREIRO “SANGUE BOM”

 

            A gíria é um fenômeno linguístico bastante curioso. Por ser um código hermético e empregado por um determinado extrato social, a gíria é formada a partir da ressignificação, da corruptela ou da junção de palavras já existentes. Os estudiosos da linguagem chamam o fenômeno de “gíria de grupo”, porque o objetivo é esse mesmo: ser entendida apenas pelos membros de um grupo, geralmente considerado à margem da sociedade. Curiosamente, no entanto, algumas gírias acabam “escapando” do grupo e penetrando no vocabulário comum e se tornam “gírias comuns”. Isso se dá, geralmente, pelo contato de membros desses grupos com pessoas não pertencentes ao grupo. Por ser um vocabulário de uso quotidiano, a pessoa o emprega com naturalidade e pessoas alheias ao grupo e tais pessoas acabam decodificando o significado. Às vezes com dificuldade, mas em grande parte com facilidade, como é o caso das gírias adolescentes dos anos 60, muito claras em si mesmas. Quem não se lembra de palavras como “broto”, “coroa”, “careta” ou “quadrado”?

 

            Lecionei Língua Portuguesa 10 anos na periferia (ou “subúrbio”, como dizem os cariocas) da cidade de São Paulo e nesse meu contato com crianças e adolescentes, acabei tomando contato com várias expressões curiosas. Uma delas foi “sangue bom”. “Sangue bom” é o sujeito gente fina, boa praça, de boa índole ou caráter.

 

            Pois um “sangue bom” que eu conheci nos meus anos de Trova foi o Milton Nunes Loureiro, presidente da UBT de Niterói e grande promotor dos inesquecíveis Jogos Florais de Niterói. Loureiro era Delegado de Polícia aposentado e, entusiasmado pela profissão que tanto amava, trabalhou mais de 40 anos na Polícia do RJ, vindo a aposentar-se apenas aos 70 anos, em decorrência da aposentadoria compulsória dos funcionários públicos. Se não, talvez tivesse ficado até os 80... Quem o conheceu certamente não duvidaria dessa hipótese.

 

            Pois o nosso querido “Doutor Milton”, como era conhecido em Niterói, partiu meio de repente. Já estava adoentado há algum tempo, estava entrando na casa dos 88, mas era um combatente e tanto. Lembro-me de uma vez em que ficamos hospedados em quartos vizinhos numa festa da UBT e ele me contou um bocado de histórias dos seus tempos de Delegado de Polícia. Uma delas, que achei divertidíssima, foi de quando ele ensinou os presos a fazer trovas e organizou um concurso entre eles na cadeia. Disse-me que seus superiores quiseram lhe mover um processo administrativo devido a isso. Achavam uma conduta imprópria para um delegado... nós rimos bastante.

 

            Não era apenas um “Forrest Gump”, é claro. Milton não era apenas um bom contador de “causos”. Era um hercúleo trabalhador da trova, organizando uma das festas mais prestigiadas e concorridas da União Brasileira de Trovadores, os Jogos Florais de Niterói, uma referência para todos nós. Um costume gentil do Milton era colocar no final do livreto o endereço de todos os participantes dos Jogos Florais, o que fazia do livreto uma espécie de “Páginas Amarelas” da Trova. Quando se queria escrever para um trovador de outra cidade, era só conferir o endereço no “livro de Niterói”... E outra coisa boa: ele já colocava o tema do ano seguinte.

 

            Ainda mais: Milton era generoso. Conforme seu orçamento permitia, ele convidava trovadores de quem gostava para ir a Niterói, apenas pelo gosto da confraternização. No final das festividades, generosamente ofertava um almoço a todos os trovadores em seu apartamento e, além do almoço, ainda dava brindes a todos. Era um Amigo da Trova, um verdadeiro Benemérito.

 

            Talvez por tanto trabalho, Milton paradoxalmente não é muito lembrado como trovador. Por uma questão de ética, ele não concorria em Niterói no âmbito estadual. Concorria em outros concursos, mas nem sempre. Ele preferia se dedicar ao soneto. Conheço pelo menos dois, que foram publicados na Antologia do cinquentenário da Casa do Poeta de São Paulo.

 

            Mas a gente encontra algumas trovas de Milton Nunes Loureiro premiadas aqui e acolá, como estas, muito bonitas:

 

O poeta, em sua lida,

ainda que o mundo o afronte,

tem sempre um sopro de vida

que o leva além do horizonte...

 

Chegaste, os braços abertos,

tranqüila... em tuas andanças...

e plantaste em meus desertos

mil sementes de esperanças...

 

Somente tristes lembranças

vão comigo pela estrada...

Eu, que plantei esperanças,

colho derrotas... mais nada...

 

A ciência me conduz

a pensar desta maneira:

do excesso, às vezes, de luz,

pode nascer a cegueira...

 

Amanhã... Depois... Depois...

Foi assim a vida inteira...      

E entre os sonhos de nós dois,

a intransponível fronteira...

 

O amanhã, que importa agora?   

Que nos importa o depois?...

Vamos viver, vida afora,

o imenso amor de nós dois!...

 

Se o meu tempo está marcado      

e da saudade eu disponho,

invento alguém ao meu lado,

cerro meus olhos e sonho...

 

Sem jamais fazer menção

ao destino que a conduz,

a raiz, na escuridão,

mantém os ramos na luz!...

 

No amor é bom ter cuidados

para evitar dissabor...

Nem sempre em beijos trocados

trocam-se beijos de amor.

 

Sem direito de sonhar,

vagando no mundo, a esmo,

nem sequer pude marcar

encontro comigo mesmo!

 

Esperança, não me peças

que acredite em tuas juras...          

Já me cansei de promessas

e me perdi nas procuras...

 

Senhor, escuta os cicios

dos excluídos, sem teto...

Troca seus ninhos vazios

por ninhos cheios de afeto!

 

Tanta ternura mostrando,

teus olhos – juro por Deus –

são mil promessas bailando

na valsa do nosso adeus...

 

Teu poder de sedução.

e a magia dos teus braços,         

levam minha solidão

a percorrer os teus passos...

 

Não quero o poder que esmaga

ntes 1998) teus passos de Milton Nunes Loureiro premiadas aqui e acolntologias.cipantes dos Jogos Florais, o que fazia o sonho com seu furor...

Eu quero o poder que afaga

nossos momentos de amor ...

 

            Milton Nunes Loureiro também fazia trovas humorísticas. Gostava de trovas meio obscenas e algumas de suas trovas eram notadamente picantes. Mas seu objetivo não era chocar. Ele dizia essas trovas com absoluta naturalidade e sem constrangimentos. Acredito que deve ser marca do seu tempo de polícia, do convívio com pessoas de vários extratos da sociedade. Ele não se chocava com qualquer coisa...

 

Ante a noiva bem nutrida, 

o cinqüentão fica louco :

- Ela só pensa em comida

e cinquentão come pouco...

 

Depois de muito tentar,

disse o velhinho em má fase:

“É duro a gente parar

quando está no quase... quase...”

 

Nunca vi coisa mais jeca,                         

disse o sapo num lamento:

– Por que ver a perereca

só depois do casamento?...

 

            Registro, aqui, a minha saudade e meu tributo à figura inesquecível de Milton Nunes Loureiro, o trovador “sangue bom”.
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PEDRO MELLO
é professor de Português, membro da UBT São Paulo e "Magnífico Trovador" por Nova Friburgo desde 2010.

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