AS  LÁGRIMAS  DO  MESTRE
                             (publicado no jornal "Tribuna do Norte" em março de 2006)

     A matéria semanal já estava pronta para ser enviada ao jornal quando, às 16:10hs de segunda-feira, dia 20 de março de 2006, tocou o telefone. Do outro lado da linha estava Waldir Neves, do Rio de Janeiro. Se ninguém estivesse me lendo, eu diria que para mim ele é, se não o maior, um dos cinco maiores trovadores contemporâneos do Brasil, além de exímio sonetista, violonista, seresteiro, etc. Para não causar constrangimento eu direi, então, que se trata de um “Magnífico Trovador”, um dos melhores que conheço!

      Ligou-me para me transmitir cumprimentos a respeito do livro de trovas lançado esta semana, em co-parceria, por José Fabiano, de Belo Horizonte, e por mim, com 50 trovas de cada autor, intitulado: “E agora... Josés?”

      Após enaltecer-me particularmente, passou a comentar algumas composições que fazem parte da obra e arrematou dizendo: ‘Essa sua trova,Ouverney, que fecha a relação, falando sobre saudade, em minha opinião é uma das mais belas trovas da língua portuguesa”. Cá entre nós: puro exagero de amigo!

      Quando pensei que ele estava apenas querendo ser gentil, de repente, para abalar-me de vez, o consagrado poeta começou a declamar essa minha trova e, no meio do segundo verso interrompeu-a, sacudido por um pranto que me deixou totalmente sem ação.

     Ah, meu velho amigo e ídolo Waldir Neves, não sabes como me senti importante e mais valorizado a partir de tuas palavras e de tuas lágrimas, tão sinceramente vertidas do jeito mais inesperado! Logo tu, meu mestre em proporção infinitamente maior, tentando me confundir e inverter as bolas! Se já eras imenso em meu conceito, agora então nem sei o que dizer.

      Humildemente achei que seria melhor retribuir-te da maneira que me é mais fácil, reproduzindo nesta coluna algumas de suas milhares de trovas aclamadas por um Brasil inteiro. E como é fácil colher cinco lindas rosas neste teu jardim! São todas de um incomparável perfume!

      A benção, meu Mestre!

TROVAS DE WALDIR NEVES - RJ
NOITE
Cai a noite... Seu negrume,
mercê de um mistério estranho,
faz de um ínfimo perfume
um lamento sem tamanho...


CIÊNCIA
Perante a Divina Luz
a Ciência se ajoelha,
pois, sendo sábia, deduz
quem lhe acendeu a centelha...


BEIJO
Zerando ofensas e afrontas,
o beijo é o mago auditor
que faz o ajuste de contas
depois das brigas de amor!


CENÁRIO
A cortina da janela...
A cama... Tudo tal qual...
— Só que o cenário, sem ela,
nunca mais vai ser igual...


QUARTEL
Muito moço inconseqüente,
despreparado e revel,
ganha têmpera de gente
na bigorna do quartel.


SAUDADE
Saudade!...Foto em pedaços,
que eu colei, com mão tremida,
tentando compor os traços
de quem rasgou minha vida!


A saudade, em horas mortas,
sem ver que o tempo passou,
teima em abrir velhas portas
que há muito a vida fechou...


Saudade é uma diligência
que nos leva, docemente,
com repetida freqüência,
ao velho oeste da gente!


Ah!, meu peito... Esta saudade...
Quero que a expulses, que grites...
Tu lhe deste intimidade,
e ela passou dos limites!

~~~ ~~~ ~~~ ~~~ ~~~ ~~~ ~~~ ~~~ ~~~ ~~~ ~~~~   

  
      Cinco meses depois, em agosto de 2006, encontramo-nos durante os festejos trovísticos na cidade do Rio de Janeiro. Waldir estava magrinho, olhar fundo... Conversamos bastante, e tive a felicidade de registrar o último abraço que dei no Mestre, numa foto que guardo como relíquia. Sua mão cingia minha cintura paternalmente. Era o adeus...

Em 24 de janeiro de 2007 o Pai Eterno o chamava...