OBS: Quando o Zé Maria passou para outro estágio, prestei-lhe a homenagem abaixo, na coluna semanal que mantenho no jornal Tribuna do Norte. Zé Maria foi um exemplo como ser humano. E um poeta irretocável!
                (texto de José Ouverney) 

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A TROVA PERDE UM DE SEUS MARECHAIS

     Trinta de outubro de 2004, para o encantado mundo da trova, passa a ser uma infinita referência de saudade. Depois de algum tempo enfermo falece no Rio de Janeiro o mais brasileiro dos portugueses, como ele mesmo costumava se auto-denominar. O mais premiado autor no Brasil, em todos os tempos, com mais de 2000 laureações, na categoria "trovas filosóficas” foi simplesmente imbatível.

     Nascido em Vila Nova de Famalicão, Portugal, em 31.01.1922, desde 1951 residia no Rio de Janeiro, onde constituiu família e se tornou um próspero empresário. Com dois livros publicados: “Cantigas que a vida ensina” e “Trovas que fiz a sonhar”, estava preparando novo livro com cerca de trezentas de suas melhores composições. Seu maior orgulho era alardear que o melhor prêmio que recebeu eram as centenas de amigos que conquistou em quase todos os Estados brasileiros. Sua trova mais marcante, entre tantas, é declamada em todos os eventos do gênero:

“Trovadores, meus irmãos,
vamos viver de mãos dadas:
onde há correntes de mãos,
não há mãos acorrentadas!”

     E atentem à profundidade deste pensamento:

“A cruz que às costas tu levas
pesa mais que a minha cruz:
é que eu ponho luz nas trevas
e tu pões trevas na luz.

     Em 1997 recebeu o prêmio “Menestrel da Trova”, quando teve um trabalho seu considerado a mais bela trova filosófica do ano de 1996:

“Se a estrada em que me confino
pelo destino é traçada,
sei que não mudo o destino,
mas posso mudar de estrada!”.

     Teve vários primeiros lugares em Nova Friburgo mas um, especialmente, merece especial citação por seu costumeiro fundo moral:

“Pelas sandálias furadas
que entre cascalhos gastei,
não culpo o chão das estradas,
culpo os maus passos que dei.”

     Poderíamos ocupar páginas e mais páginas falando do brilho do seu estro mas nos contentaremos em fechar essa homenagem póstuma com um trabalho que obteve o primeiro lugar em Ribeirão Preto no ano de 2001, e que se apresenta como se fosse seu último anseio:

“Por crer em Deus e querer
voltar ao “céu” de onde vim,
eu comecei a fazer
outro céu, dentro de mim!...

     A União Brasileira de Trovadores jamais o esquecerá, até porque sua obra falará por si eternamente. Com toda certeza o seu céu interior tinha um fulgor incomum, e é isso que conta junto ao Pai Celeste!

    Adeus, amigo e irmão JOSÉ MARIA MACHADO DE ARAUJO! Seu grito ante as desigualdades sociais e principalmente contra a violência que tanto assola principalmente o seu Rio de janeiro, continuará ecoando pelas páginas dos periódicos, como esse que você tão bem definiu, ao falar das balas perdidas que roubam dezenas de vidas inocentes:

“O que hoje mais me intimida
é ver, na fúria assassina,
que o preço de qualquer vida
é um tiro em qualquer esquina...

     Vá em paz, Zé Maria, pois esse sempre foi o seu lema: sonhar com um mundo melhor. Adeus