OBS: Meu poeta de cabeceira e minha referência poética, este é o brilhante J.G., parceiro de Luiz Otávio na história desta Trova que hoje tanto nos encanta! ============================================

José Guilherme ( J.G. de Araujo Jorge) nasceu a 20 de maio de 1914, em Tarauacá, Acre. Passou sua infância no Acre, em Rio Branco, onde fez o curso primário no Grupo Escolar, 7 de Setembro.
No Rio , realizou o curso secundário nos Colégios Anglo-Americano e Pedro II Colaborou desde menino na imprensa estudantis.
Foi fundador e presidente da Academia de Letras do Internato Pedro II, no velho casarão de S.Cristóvão consumido pelas chamas muitos anos depois.
Data dessa época, ainda ginasiano, sua primeira colaboração na imprensa adulta: em 1931 viu publicado o seu poema " Ri Palhaço, Ri " no " Correio da Manhã", depois transcrito no "Almanaque Bertand" de 1932.
Entretanto, este como outros trabalhos desse tempo, não foram incluídos em seus livros. Publicou seu primeiro livro de poesias em 1934, “Meu Céu Interior” que recebeu “Menção Honrosa” da Academia Brasileira de Letras.
Colaborou também no jornal " A Nação" ; nas revistas: "Carioca", "Vamos Ler", etc.
Formou-se pela Faculdade Nacional de Direito da Universidade do Brasil.
Em 1932, no Externato Colégio Pedro II, em memorável certame, foi escolhido o " Príncipe dos Poetas", sendo saudado na festa por Coelho Neto, "Príncipe dos prosadores brasileiros" recebendo das mãos da poetisa Ana Amélia, Presidente da Casa do Estudante, como prêmio e homenagem, um livro ofertado por Adalberto Oliveira, então " Príncipe da Poesia Brasileira". Em 1953, professor do Colégio Pedro II, foi escolhido “Paraninfo do Colégio” (fato único na história do tradicional colégio), por todas as turmas que terminaram o curso naquele ano.
Na Faculdade de Direito foi o fundador e o 1º Presidente da Academia de Letras, que teve como patrono Afrânio Peixoto, então professor de Medicina Legal.
Foi professor de História e Literatura, do Colégio Pedro II, e Técnico em Educação e Orientador do SENAI, em Friburgo.
Orador oficial de entidades universitárias, (do CACO da União Democrática Estudantil, precursora da UNE, da Associação Universitária, etc).
Em Coimbra recebeu no título de " estudante honorário" e fez Curso de Extensão Cultural na Universidade de Berlim.
Politicamente participou sempre das lutas antifascistas, como democrata e socialista. Lutou, ainda estudante, contra o "Estado Novo". Foi preso e perseguido várias vezes durante esse período . Deixou de ser orador de sua turma por estar detido na Vila Militar, sob as ordens do Gal. Newton Cavalcanti, durante todo "estado de guerra" de 1937. Considerava a Populorum Progressio de Paulo VI e a Laboren Exercens , de João Paulo II, os documentos mais importantes de todos os tempos.

Foi locutor e redator de programas radiofônicos, atuando nas Rádios Nacional, Cruzeiro do Sul, Tupi e Eldorado.

Com irrefreável vocação política, foi candidato a vários cargos públicos. Elegeu-se Deputado Federal em 1970 pela Guanabara, e foi considerado pela Imprensa do Congresso como um dos “10 Melhores Deputados Federais”. Autor de dezenas de Projetos de Lei, e da Lei dos Feriados e dos Cartazes, que “nacionalizou a criação e a produção de cartazes de cinema” no Brasil.

Primeiro defensor do ex-Presidente Juscelino Kubtschek de Oliveira. Ocupou a vice-liderança do MDB, a Presidência da Comissão de Defesa do Consumidor e a presidência da Comissão de Comunicação na Câmara dos Deputados. Foi reeleito por quatro legislaturas consecutivas, até 1987. Oposicionista autêntico, sempre se bateu por reformas de estrutura, intransigente na defesa de posições socialistas, democráticas e cristãs.

Escritor, jornalista, advogado, publicitário, político, professor e principalmente, poeta., com 19 livros de poesias, 9 antologias poéticas, 3 livros de prosas, sendo um romance (Um Besouro Contra a Vidraça) e 4 livros de trovas. Como jornalista escreveu em diversos jornais como “Correio da Manhã”, “A Nação”, Tribuna de Imprensa”, e revistas como a “Carioca”, Vamos Ler, Jóia”, “Letras Brasileiras”. A tiragem de seus 35 livros ultrapassa 2 milhões de exemplares e mesmo não tendo sido editado nenhum livro desde sua morte, sua poesia permanece viva nos 4 Continentes através do Site em sua homenagem: www.jgaraujo.com.br .

Foi conhecido como o “Poeta do Povo e da Mocidade”, pela sua mensagem social e política e por sua obra lírica, impregnada de romantismo moderno,às vezes, dramático. Foi um dos poetas mais lidos, e talvez por isto mesmo, o mais combatido do Brasil. JG teve dois grandes amores em toda sua vida. O primeiro foi um “amor de adolescente” e o segundo, “amor de outono” que durou 27 anos e lhe deu dois filhos: Igor e Tatiana. Foi casado com sua amada da juventude, Maria de Souza, a quem sempre chamou de “Lurdes”, e deste casamento não teve filhos.

No poema “Par Constante” JG conta como conheceu Lurdes, e quando o cronista do “Diário Carioca”, Jean Pouchard , pediu-lhe um poema inédito para o seu suplemento dominical do dia 19 de abril 1959, JG enviou-o acompanhado de um bilhete explicativo:

“ Meu caro Jean Pouchard Aqui vai um inédito para a sua seção domingueira no "Diário Carioca”. Ia-lhe mandar alguns poemas novos, quando remexendo a gaveta encontrei um soneto, um velho soneto, sempre novo para mim, e inédito ainda. Esta datado de 16 de fevereiro de 1938. Tem 21 anos portanto. Eu o teria possivelmente incluído em algum livro se não tivesse se perdido. Agora que o encontro, relendo-o, ele me fez voltar ao passado, num imprevisto turismo sentimental. É um soneto adolescente, meio ingênuo, mas sincero. Guarda aquela marca de sinceridade que sempre fiz questão de expressar em meus trabalhos, e que explica, talvez, porque consegui ao fim de tantos anos de poesia interessar aos meus leitores. Este soneto, feito quando ainda era estudante, foi dedicado àquela com quem afinal me casei. A coisa começou em poesia, e acabou em vida mesmo. Eu a conheci justamente num dia 2 de janeiro, no ano de 1937. Era uma batalha de confete (assim se chamavam nessa época os bailes de festas pré-carnavalescos) oferecida pelo antigo Clube Boqueirão do Passeio ao Tijuca Tênis Clube, em sua sede, na Rua Santa Luzia. Como sócio do Tijuca, eu compareci. Depois... fiz o soneto. A vida fez o resto. Um abraço muito cordial do J.G. P.S. - Quando voltará a Friburgo? Não espere motivos, invente um e suba à serra. Friburgo é o melhor investimento de alegria e saúde para os que podem tirar da semana, ou do mês, alguns dias para gastar.”

“Par Constante”

Dia dois... uma festa... Era o mês de janeiro...
Festa da minha vida... A noite azul, brilhante...
Chegaste... E eu fui teu par... fui o teu par primeiro...
Dançamos... (como é bom lembrar aquele instante!)

Tu, tão linda, nem sei... Eu, feliz, petulante,
um pouco petulante, sim... mas cavalheiro...
Dançamos toda a noite... E fui teu par constante...
Nem só teu par constante... Eu fui teu par primeiro...

Quantas cousas te disse... E assim juntos, os dois,
com os meus olhos nos teus - afinal, quem diria
o mundo que ainda havia de surgir depois?

Quem diria ao nos ver, talvez, aquele instante,
que o nosso par feliz, constante aquele dia,
seria a vida inteira e sempre um par constante!

Poema de JG Araujo Jorge Meu Céu Interior -5ª edição

Em 1959, numa tarde de autógrafo, JG conheceu Maria José de Menezes e dedicou a ela o seguinte poema.

" Primavera "

O teu amor, querida, fez um dia de primavera neste começo de outono que é a minha vida.
E do ramo, de onde as primeiras folhas se soltavam pálidas, sem cor,
surgiu uma flor imprevista: o teu amor...

Teu amor chegou assim,
como uma coisa que no fundo se deseja mas não se espera,
emocionando o coração, neste começo de outono
como um dia de primavera!

JG sempre teve o maior respeito e atenção pelos leitores, respondia pessoalmente a toda correspondência e o contato com o público, nas tardes de autógrafo, deixava-o extremamente feliz. Seus olhos verdes brilhavam, como duas esmeraldas , escondidas por trás dos óculos... JG observando a longa fila, notou uma linda jovem, à parte, junto à parede, segurando um livro ...
A fila ia andando e a moça não se movia... Cabelos castanhos... olhos castanhos claros... elegantemente vestida... formas generosas...
No burburinho da loja Sears, na seção livraria, ela se destacava... Imóvel! Olhar fixo... Coração batendo descompassadamente...
Quando o último livro foi autografado, JG com um gesto de mão, a chamou.
– “Qual o seu nome?” Perguntou JG
– “Maria José” a jovem respondeu, trêmula de emoção.

Conversaram como se há muito já se conhecessem...
A moça, 20 anos mais nova que o poeta, fazia poucos meses que terminara um casamento... tinha dois filhos pequenos: Ivan e Sérgio. Ele pediu o número do telefone dela, mas Mª José não sabia porque fazia pouco tempo que havia sido instalado na Escola onde lecionava... mas...

“–Devo voltar na quinta-feira, tenho um compromisso aqui, e lhe trarei o número...”

Mentiu! não tinha compromisso algum, queria voltar a conversar com esse homem fascinante...
Era uma tarde de segunda feira, dia 29 de junho de 1959. JG estava com 44 anos e julgava estar vivendo o “começo de outono”e o amor dela veio como “um dia de primavera”.

Foram 27 anos de primaveras até o último verão, em que, depois de uma longa enfermidade, a 27 de janeiro de 1987, JG foi levar sua poesia para outra dimensão.

Maria José de Menezes, nasceu em Niterói-RJ, a 15 de dezembro de 1934. De família tradicional, rigorosa na moral e costumes, Mª José teve que lutar contra tudo e contra todos para viver esse grande amor. Ser “separada” naquela época – 1959 - já era um “escândalo”. Ir morar com um homem casado, era a coisa mais abominável! Decidir ter um filho, então, transgredia a moral e os bons costumes... e ela teve dois !!! Igor Menezes de Araujo Jorge, nasceu a 14 de dezembro de 1960 e Tatiana Menezes de Araujo Jorge em 28 de dezembro de 1961, ambos em Niterói, RJ.

" A Suprema Revelação "

Ponho a mão, de leve, sobre o teu ventre, tenso,
em sua túmida rijeza,
e, de repente, sou o primeiro homem
diante do desconhecido e da beleza.

(Eu orgulhoso da ciência e do saber humanos)
- sou o homem primitivo ignorante de tudo,
temeroso de tudo
- que nada explica, nada descerra -
que se deslumbra ante a mensagem dos céus,
e, trêmulo, se amedronta ante os mistérios da terra!)

Ponho a mão sobre o teu ventre abaulado,
onde palpita uma força indefinida,
como se sentisse na própria mão, indecifrado,
o segredo da Vida!

Parece que Deus se utiliza de teu corpo
para revelar-se em seu poder e em sua essência
e para mostrar a distância infinita
entre a pretensiosa vaidade do saber humano,
e a sua Onisciência!

Sim. É como se Deus se comunicasse comigo
nesses estranhos sinais que sinto em minha mão...
E perturbado e incrédulo, me interrogo,
sem perceber a razão
por que haveria Ele de permitir
que eu e tu partilhássemos dos mistérios da Criação?

Ponho a mão, de leve, sobre teu ventre,
e entre deslumbrado e atônito
perturbado e intranqüilo,
fico a pensar que Deus serviu-se de ti, para que eu
- materialista e ateu -
pudesse senti-lo, e - poeta - pudesse "vê-lo",
e humildemente, homem, pudesse reconhecê-lo!
J.G. de Araujo Jorge - " Cantiga do Só " 1a ed. 1961 OBS: dados extraidos do site www.jgaraujo.com.br