GANHAR E PERDER 

         Quando entrei para a UBT Seção São Paulo em 1997, um dos primeiros eventos de que participei foi de uma oficina de trova, ministrada pelo antológico Izo Goldman.

         Fazia parte da oficina um tópico sobre concursos de trova. O Izo nos deu uma relação de 10 trovas e nos pediu que déssemos notas de 1 a 10. Cada um de nós teve um pequeno prazo para ler as trovas, dar as notas e devolver ao Izo uma folha com as notas atribuídas. Depois ele fez um mapa com nossos nomes e notas, somou tudo e deu o “resultado”. O resultado foi bastante curioso e emblemático. Foi, de fato, uma grande lição de vida. Depois que deu o resultado, ele comparou as notas. Houve trovas que receberam notas extremas – 1 e 10, por exemplo, e outras que ficaram com notas médias. A trova que obteve o primeiro lugar não teve nota máxima de todos, como se poderia erroneamente supor. A diferença de notas entre as dez trovas foi pequena. Mas a lição ainda não estava completa. Depois de tudo isto, o Izo completou: as dez trovas que ele nos deu para julgar eram resultado de um concurso nacional de vários anos antes e estavam em ordem de classificação... Mas a ninguém ocorreu esta possibilidade e acho que somente uma pessoa deve ter dado nota 10 para a trova nº. 1. Inclusive a mais votada entre nós da oficina foi a número 7, isto é, a que obtivera o 7º. lugar no concurso em questão.

         Um ano depois, 1998, fiz uma oficina de trova com alunos do Ensino Médio na escola onde lecionava, com as dez primeiras colocadas daquele ano em Nova Friburgo. Aconteceu o mesmo fenômeno. As notas foram bastante variadas e, se não me falha a memória, nenhum aluno deu nota dez para a número 1.

         Como já foi oportunamente lembrado, eu nunca trabalhei pela trova e deveria usar minha “juventude” (sic) para fazê-lo, em vez de meramente dar palpites; é a opinião de gente graúda. E é verdade. Minha atuação é bastante precária. Eu me limito a ir às reuniões da UBT quando posso e a viajar esporadicamente, na maioria das vezes com as finanças enforcadas. Sendo assim, talvez eu não tenha direito de emitir opiniões ou impressões do que acontece no mundo da Trova. Não trabalho pela UBT e apenas usufruo do trabalho de outros. Mas talvez seja por isto mesmo que aprendi a valorizar quem trabalha pela Trova. A lição prática do Izo sobre o funcionamento de concursos de trova foi uma lição perene porque me ensinou – na prática – que ganhar e perder são partes do jogo. Uma constatação óbvia, mas às vezes difícil de ser compreendida. Fico feliz quando ganho? Naturalmente. E quando não ganho? Fico feliz pelos meus amigos. A trova que não foi premiada hoje pode ser premiada amanhã. Se nunca chegar a ser premiada, por que me “grilar”? Tenho todo o direito de incluí-la em um livro. Então, por que ficar aborrecido e amargo com resultados ou por que não sou bem-sucedido o tanto quanto eu gostaria de ser?

         Somos humanos... Mesmo os gêmeos univitelinos não são idênticos na personalidade. Conheço gêmeos de personalidade tão distinta! Fico imaginando as mais diversas pessoas lendo as mesmas trovas. Suas impressões diferentes se refletirão nas notas. Nem sempre uma UBT tem condições de selecionar rigorosamente seus jurados – há questões de âmbito social, afetivo ou ético que têm de ser levados em conta. Nem sempre é possível escolher uns e deixar outros de fora de uma comissão. É a vida em sociedade. E mesmo quando é possível formar uma comissão de gente que “entende de trova”, há diferenças sensíveis entre tais. É a vida. Já diziam os romanos: “Cada cabeça, uma sentença”.

         Ganhar e perder. São faces da mesma moeda a que chamamos de vida. Haveria graça se o Brasil fosse campeão em todas as copas do mundo?

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Pedro Mello, professor de Português e o mais recente "Magnífico Trovador" por Nova Friburgo, é integrante da UBT São Paulo.

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