(estrelando o Prof. Pedro Mello)

     A despeito do que possam falar, referindo-se à Trova, que se trata de poesia de menor expressão, continuo achando que as dificuldades em compô-la são as mesmas de quem cria um poema com versos brancos. Ou um soneto. Obviamente estou me referindo à “boa trova”. Assim como, mais obviamente ainda, se o trabalho não for bom, pode até ser um poema épico, que o seu destino há de ser sempre o lixo.

     Ocorre que um dos princípios da trova enfatiza que ela deve primar pela simplicidade. Embora seja indispensável o conteúdo. Ora, tenho visto, por aí, poemas livres tão complexos, mas tão complexos, que parecem ter sido escritos apenas para o autor. Confesso que já tive esses arroubos. Quando era adolescente. Sabe, essa quase fobia de querer complicar, para passar a impressão de profundidade?

     Por outro lado, os bons trovadores não são apenas bons trovadores. São bons sonetistas. Bons contistas. Bons cronistas. Com raras exceções, passeiam por todos os desmembramentos que a prosa e a poesia possam oferecer, sem comprometimento da essência, que se chama CRIATIVIDADE.

     Hoje, olhando, por acaso, trabalhos de amigos trovadores, que não fossem necessariamente trovas, deparei-me com este soneto do jovem autor Pedro Mello (nascido em 1977), residente em São Paulo, professor de língua portuguesa e – utilizando uma palavra muito na moda ultimamente – resolvi “compartilhar” com você, leitor/a. Na certeza de que irá degustá-lo da mesma forma como o fiz. Boa leitura.

Pedro Mello. (Foto: divulgação)

ENTRANHAMENTO (Soneto de PEDRO MELLO)

Há muito que te quero despejada
de meus delírios… de meus sonhos tristes…
Não houve um “nosso amor”… não houve nada…
Eu me lembro de ti, mas não existes…

Mas nos meus versos… eis que tu resistes…
e mesmo que eu não queira, de arrancada
alguns teimosos brotam… tu persistes
em te esgueirar por mim, meio acanhada…

Tolice grande eu me lembrar de ti…
não me quiseste… e eu não te possuí…
Por que não digo simplesmente “fim”?

Porque estou preso… atormentado e preso…
preso ao passado, débil e indefeso,
sem que eu consiga te arrancar de mim…
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texto de José Ouverney, publicado em 25.07.2013