Dylma Cunha de Oliveira - Rio de Janeiro, via Porto Alegre

         DYLMA CUNHA DE OLIVEIRA nasceu em Porto Alegre, filha de Alarico da Cunha e D. Maria da Penha Figueiredo Ferreira da Silva. Morou em São Paulo, onde formou-se pela Escola de Arte Dramática. Ainda em SP foi condecorada várias vezes, inclusive pela Revista "A Cigarra", como "Melhor Sonetista do Ano".  No Rio, recebeu o título de "Cidadã Carioca", pela Câmara dos Deputados do antigo estado da Guanabara. Seu livro "Guanabara, Flor do Mundo" foi escolhido pelo MEC, para representar a poesia brasileira feminina no Canadá. Fo também jornalista profissional

Se eu fosse do amor soldado,

minha vitória era ter

teu coração espetado

na lança do meu querer!

Quando passas, moreninha

sapeca, de sol tostada,

meu pensamento adivinha

teu sabor de carne assada...

Para amar melhor, eu ponho

numa eterna teimosia,

as antenas do meu sonho

na rádio da fantasia.

O invejoso é tão mesquinho,

que sofre mais (tomem nota)

com a vitória do vizinho

do que com a própria derrota!

No picadeiro da vida

somos dois grandes fracassos!

Eu, trapezista caída...

Tu, o pior dos palhaços...

Não sabes com que recato

escondo, no coração,

ternura mansa de gato,

fidelidade de cão!

Sem ti minha alma flutua

num mar de espanto e de medos.

Desnorteada chalua

que vai de encontro aos rochedos.

Deste-me um beijo na testa,

mansinho, respeitador...

Beijo assim, meu bem, não presta,

não deixa gosto de amor.

Por mais que tentem os fados,

não digo adeus, nem o dizes.

Estamos entrelaçados

no fundo, pelas raizes.

Meu coração (que maçada!),

sujeito ao teu desvario,

é uma casa esburacada

onde entra o sol e entra o frio.

Quando minha mão tão lisa

aperta a tua, tão rude,

minha alma fica indecisa

entre o pecado e a virtude.

Nosso amor, de curta história,

foi tão ligeiro e violento,

que, se me vem à memória,

me parece um pé-de-vento!

Se o amor é chama ardente

a iluminar nossa meta,

ciúme é sombra evidente

da luz que esse amor projeta.

Eu que fui chama dourada

em tua vida, suponho

que, hoje, sou brasa apagada

na lareira do teu sonho.

Negrinha linda, és um gosto

e nos tiras o juízo,

com a noite escura no rosto

e o dia claro no riso!

Enquanto fumo, a fumaça

esta verdade me explica:

- Eu sou o sonho que passa,

a dor - o sarro que fica...

As ilusões, sem que eu veja,

vão descendo, uma por uma,

como em copo de cerveja

o colarinho da espuma...

Não há nada, se presume,

que dê mais gosto e sabor

que a rodela do ciúme

na "cuba libre" do amor.

Na tristeza que flutua

em mim, teu riso tão puro

é como um raio de lua

nas trevas de um quarto escuro.

Saudade: aranha que trança,

para nosso encantamento,

lindos fios de lembrança

na gruta do pensamento.

Subo serra, abro picada,

transponho rios medonhos,

e não me sinto cansada

de correr atrás dos sonhos.

Vejo-me sempre no espelho,

cada vez mais diferente.

O sofrimento é um relho

que marca a face da gente.