DOCUMENTO IMPORTANTE  III

     Como afirmei em texto anterior, o texto escrito é um documento, um registro do uso linguístico de determinada época.      Vimos o quanto a trova do Nélio Bessant abre horizontes para possibilidades de rima: a rima de –al (ou “–el”, e “–il”) com –au (ou “–éu” e –“iu”). Ampliam-se as possibilidades: ao lado de colossal/tal, mau/pau, por exemplo, teríamos social/capiau ou grau/tal. Obviamente as formas não se excluem: se complementam! E aí quem ganha é o trovador, o sonetista, o cantador do cordel, que ampliam o leque de sonoridade...

     O Mestre A. A. de Assis, muito gentil, me enviou um email, no qual, entre outras coisas, afirma o seguinte: “Acabo de ler no "Falando de Trova", do grande Ouverney, mais dois ótimos textos seus, desta vez sobre rimas que causam certo susto nos que parecem ter pouca intimidade com os mistérios da fonética (...)”

     A fonética (fonologia ou fonêmica) é a parte da gramática que estuda os sons linguísticos, i.e., os sons que constituem as sílabas e as palavras. Trata-se de uma ciência bastante complexa a que me refiro com certa frequência, inclusive, como apoio a certas investigações linguísticas que me disponho a fazer neste espaço.

     Esta ciência ainda vai dar o que falar... a rima é um fenômeno fonético, a silabação é um fenômeno fonético... o que provoca “sustos” é a velha confusão entre fonema e letra, o “pecado original” de quem só ouve falar e nunca estudou o assunto de verdade. As letras que usamos para transcrever fonemas são apenas símbolos e nem sempre coincidem com o som que lhes atribuímos no dia-a-dia. Apesar de dificuldades iniciais com nomenclatura, conhecimentos básicos de fonética são importantes porque nos ajudam a deslindar esse mistério que é “o reino das palavras”...

     A seguinte trova, da lavra do grande ZAÉ JÚNIOR, está publicada no seu monumental “Pássaro Aprendiz”, de 2003, à p. 49:

No pomar sem zelo e agreste,
na manhã feita de orvalho,
um pobre com frio se veste
com os trapos do espantalho!

     O terceiro verso “um-po-bre-com-frio-se ves/te” revela um uso que muitos não aceitam, mas que é perfeitamente natural: a contagem da palavra “frio” como monossílaba, ao invés de dissílaba, como preconizam os tratados de versificação. Não se trata de regionalismo, porém, como poderíamos erroneamente pensar. É um uso tão corriqueiro, que já foi dicionarizado. Não é comum os dicionários trazerem as palavras com a divisão silábica, mas o dicionário Luft, registra frio assim: fri:o.

     É o mesmo procedimento usado em ditongos crescentes nos finais de palavras: his.tó.ri:a, sé.ri:e, á.gi:o. A nova nomenclatura gramatical brasileira, coligida pela Academia Brasileira de Letras, no VOLP, chama palavras como as três últimas de “proparoxítonas aparentes”, isto é, paroxítonas terminadas em ditongo crescente que podem ser, ao mesmo tempo, proparoxítonas se quebrado o ditongo em hiato. Os dois pontos [ : ] indicam essa possibilidade: podem ser hiatos e podem ser ditongos. Se uma questão de concurso público, por exemplo, colocasse hiato ou ditongo como alternativas excludentes, caberia recurso e tal recurso seria ganho sem maiores problemas. Esse fenômeno fonético recebe um nome: sinérese. Em alguns casos, o hiato pode ser lido com ditongo: criança, piano, possuir.

     As palavras com o hiato io, conforme o uso dos falantes do Português do Brasil, apresentam oscilação de pronúncia independente da região do país. Possuo gravações de falantes de partes diversas do país. Mineiros, baianos, pernambucanos, cariocas, fluminenses, paulistas, paulistanos, paranaenses, catarinense ou gaúcho... falantes dessas regiões (cultos ou não) pronunciam o encontro vocálico io como ditongo crescente, ao invés de hiato. É um fenômeno em curso, ainda não plenamente gramatizado, mas perceptível a qualquer ouvinte. É possível que, dentro de alguns anos, a sinérese em fri:o, ri:o, som.bri:o seja aceita, assim como é em outros casos e tenhamos um caso de duplicidade, como há nos outros supracitados. Embora o hiato seja considerado padrão (“O Ri-o de Janeiro continua lindo...”), está enfrentando forte concorrência com o ditongo. As duas formas estão em vias de coexistirem paralelamente sem percalços.    

      (Uma riqueza quase inescrutável a de nosso idioma! Apesar das gramáticas mais antigas serem de natureza mais prescritiva, sob a perspectiva dicotômica certo/errado, os estudos mais modernos apontam grandes oscilações de uso. Recomendo aos que tiverem um dinheirinho sobrando que comprem a Moderna Gramática Portuguesa, do Prof. Evanildo Bechara, Professor Emérito da UERJ e da UFF, e a Gramática do Português Contemporâneo, de Celso Cunha e Lindley Cintra.)

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Pedro Mello é professor de lingua portuguesa, sonetista e trovador pertencente à UBT, seção de São Paulo/SP. ~Texto postado em 14.04.2009