A DIFÍCIL TAREFA DE JULGAR - III
(texto de Renato Alves)

 
     Ao escrever esta série de artigos, minha intenção é somente a de oferecer alguma contribuição para uma uniformização dos critérios usados nos julgamento de trovas para facilitar o trabalho dos julgadores e, ao mesmo tempo, evitar injustiças e polêmicas que, muitas vezes, surgem em decorrência de interpretações pessoais do Decálogo de Luiz Otávio. Tenho a convicção de que o rigor, às vezes controverso, na aplicação das normas está contribuindo para afugentar os novatos, e valorizando exageradamente a Forma em detrimento do Fundo, que é a alma da trova no dizer do próprio Luiz Otávio:

“Na trova, soneto ou poema
em toda parte do mundo,
se a Forma é o seu diadema,
a sua alma é sempre o Fundo!” (L.O.)

Vejamos alguns exemplos:

     -O Art.4º, que trata da junção de vogais, tem o seguinte teor em seu parágrafo único: “Aceitam-se exceções a esta regra no sentido de evitar a formação de sons duros e desagradáveis.
(Será que o julgador leva em conta a possibilidade de o
trovador não ter feito determinada junção por considerar o som desagradável?)

     -O Art. 5º diz: “Uma vogal tônica pode ou não fazer junção com a vogal átona da palavra seguinte...”
(A quem cabe a escolha: ao trovador ou ao julgador?).

     -Art. 8º:“Em alguns hiatos é facultativa a contagem em uma só sílaba (sinérese)”
(Por que reduzir estes “alguns hiatos” a apenas “ciúme e poeta”?)

     -Há ainda outras práticas facultativas no Decálogo, mas rejeitadas nos julgamentos...
     Enfim, jamais desmerecendo o Decálogo, obra fundamental para o trovismo, o que venho propondo é uma regulamentação oficial padronizada destes casos facultativos e a inclusão de outros não contemplados de modo a evitar polêmicas tão comuns quanto desgastantes em nosso meio. Isto facilitaria a construção formal da trova, e o trovador iniciante poderia dedicar-se mais ao aprimoramento da ideia, do achado, em vez de produzir, como às vezes ocorre, trovas tecnicamente perfeitas, mas vazias de conteúdo. Infelizmente, já percebi que não se pode tratar de qualquer assunto neste terreno sem que sejamos imediatamente acusados de querer semear a confusão e até de desrespeitar (?) a memória de Luiz Otávio, quando, na verdade, foi por admirar demais o trabalho e o entusiasmo desse conterrâneo ilustre, que ingressei na Trova e resolvi estudar a fundo sua obra, a história da UBT e da Trova de um modo geral.

     O que ainda me consola, no entanto, é ver meu guru e mestre A.A.de Assis, exemplo de conduta ética para qualquer um, amicíssimo de Luiz Otávio, defender ideias semelhantes
às que venho expondo, como se pode ver em seu artigo sobre a palavra “voo” no Boletim Nacional de outubro/2014.
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NOTA = O Prof. Renato Alves é vice-presidente das UBTs estadual e municipal do Rio de Janeiro