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A DIFÍCIL TAREFA DE JULGAR - texto de Renato Alves
 
 
    No meu entendimento, a trova deve conter, em primeiro lugar, um bom “achado”, isto é, uma ideia original que nos leve a pensar, que nos faça sentir alguma emoção ou que nos faça sorrir. Deve adicionalmente apresentar uma linguagem adequada, um ritmo agradável, uma estrutura formal que não fira os fundamentos básicos da métrica e da rima com base na língua falada.

    No entanto, quando julgamos trovas de concursos, em geral queremos saber primeiro da sua “perfeição” formal para só depois (e estando OK a forma) determo-nos na apreciação do conteúdo, do significado, das imagens, enfim, da beleza essencial da trova. Quantas trovas deixam de ser avaliadas por apresentarem um pequeno senão formal, às vezes com base na grafia.

 
    Não se trata de ser condescendente com erros. O que penso é que devemos, isto sim, rever o nosso conceito de erro, porque em matéria de Fonética “certo-errado” não se aplicam com rigor matemático. Por exemplo: porque não posso rimar “desejo” com “beijo”, se a pronúncia a partir da vogal tônica dessas palavras é praticamente a mesma: /desejo/ /beyjo/ (Obs: o /y/ é o símbolo fonético para a semivogal que têm o som de “i” átono, tão fraco que não raro desaparece na pronúncia). Lembro aqui que o preceito básico de qualquer tratado de versificação é considerar os sons (fonemas) das palavras e não as letras.
 
    As canções da MPB, que tanto apreciamos, não têm o rigor que aplicamos às trovas. Lamartine Babo escreveu: “A orquestra tocou uma valsa dolente, / tomei-te aos braços / fomos dançando, ambos silentes...”(Se fosse uma trova, ia pro lixo por causa desse “s” a mais...); Chico Buarque rimou “herói com cowboy”, “bodoque com rock”; e Dominguinhos escreveu esta maravilha: “Tô com saudade de tu, meu desejo / tô com saudade do beijo e do mel / do teu olhar carinhoso / do teu abraço gostoso / de passear no teu céu...”
 
    Infelizmente, os trovadores estamos habituados a priorizar a forma “correta” em detrimento do conteúdo. Isto, a meu ver, vem prejudicando a criação principalmente dos novatos que passam a preferir a poesia livre. Este nosso hábito pode ser comprovado em algumas festas da trova quando, ao receberem o libreto com os trabalhos premiados, algumas pessoas põem-se imediatamente a “catar” pés quebrados, rimas imperfeitas, cacófatos e, quando os descobrem, apontam, com uma espécie de prazer, os deslizes das comissões julgadoras. À guisa de ilustração do que digo, encerro com uma historinha verdadeira:
Certa vez, num almoço de despedida de uma grande festa da trova, a coordenadora do concurso-relâmpago do evento foi publicamente admoestada por uma trovadora, bem no ato da divulgação do resultado:
–Me admira muito você não ter visto um cacófato horrível na trova daquele rapaz do Rio!
A trova que tirou 2º lugar e continha o “cacófato horrível” era esta:
 
“O Amor, em duro combate,
aprisionou-me à paixão
e, agora, pede resgate...
Mas eu prefiro a prisão!”...  

 

OBS: o Prof. Renato Alves é presidente em exercício da UBT Rio de Janeiro