Demóstenes Cristino - Caratinga/MG

DEMÓSTENES CRISTINO nasceu no dia 14 de julho de 1894 na Fazenda Caju, Distrito de Entre Folhas, Caratinga (MG), filho. Cursou Odontologia em Juiz de Fora e exerceu a profissão em Poços de Caldas, até mudar-se em 1926 com a família para Ipameri (GO), à época chamada de Entre Rios. Lá, publicou Musa Bravia (1949) e Trovas (1960)e atuou também como jornalista colaborador dos dois jornais da cidade.

O poeta faleceu em Ipameri mesmo, em 18 de abril de 1962 

 

A mulher que escorregou

por causa do coração

terá sempre nos sapatos

um pedaço de sabão...

Sarampo... escola... pião...

Amor... sofrimento ...lida...

Cabelos brancos... caixão...

Velas ardendo... eis a vida!

A noite ficou viúva.

Como o pranto lhe escorria!

Pelas lágrimas da chuva,

chorava a morte do dia.

Chegou num passo miúdo,

destrancou meu coração

e entrou de sapato e tudo,

pisando duro no chão.

Passarinho, o meu destino

é diferente do teu.

São de dores, passarinho,

as penas que Deus me deu

 

A madeira, por mais dura,

rói-a o cupim, lentamente.

– Caruncho – mal da madeira,

ai, Tempo! – cupim da gente.

A saúde e a mocidade

não são um bem permanente,

e a gente só sabe disso

depois que fogem da gente.

Meu sorriso permanente

não exclui mágoas e dores.

Entre os sepulcros sombrios

também desabrocham flores.

Que boneca esta morena!

Vejam só que perfeição.

- Como as bonecas (que pena!)

não tem, também, coração...

Laço de certas gravatas,

se fosse bem arrochado,

quanto patife no mundo

em boa hora enforcado!

Um caniço e uma canoa;

dentro dela, eu e você.

O barco vogando à-toa...

Pra que mais peixe? Pra quê?

A vida é um copo de leite,

azedo, ralo, sem nata.

E é quase no fim do copo

que a gente dá com a barata...

         HUMOR

Certa moça, à confidente,

dizia isto, baixinho:

– Se beijo gastasse a gente,

eu era, nega, um tiquinho...

Padeço muito, padeço,

e bebo para esquecer.

Mas, se de tudo me esqueço,

não me esqueço de beber...

Os seios intumescidos

dessa morena cafusa,

são dois cornos atrevidos

chifrando o avesso da blusa.

Teu abraço apertadinho

pregou-me um susto danado:

- pensei que fosse um tourinho

que me tivesse chifrado...

Há mais valor na feiúra

que na beleza que tenta.

Esta passa, pouco dura,

aquela com o tempo aumenta...

Coração namorador

lembra casa de pensão:

– Quando acode a freguesia

põe gente até no porão.

Motorista, camarada,

não corra assim com seu carro!

- Segundo a História Sagrada,

nós fomos feitos de barro...

Vejam só daqueles dois,

que namoro sem-vergonha!

Inda vão dizer depois

que a culpada é a cegonha...

Não corro da jararaca

nem fujo ao cabra atrevido,

só tenho medo de faca.

mulher bonita e apelido.