POSSO RIMAR “CÉU” COM “CORCEL”?

            Apenas mudando as palavras, eu escutei essa pergunta duas vezes, em momentos diferentes nestes anos de UBT. Da primeira vez, foi no ano em que entrei. Uma trovadora então novata disse a outra que havia feito uma trova em que rimava “céu” com “batel”. A outra respondeu que “não podia, que esse tipo de rima não é perfeita e não é aceita”. Assim, dessa maneira, a questão ficou encerrada.
          
          Em meu espaço aqui no site “falando de trova” já abordei a questão, que novamente veio à tona. No ano passado, durante os festejos dos Jogos Florais de Nova Friburgo, uma pessoa me perguntou se podia rimar “céu” com “corcel”. Confesso que fiquei encantado com a pergunta e me lembrei de um poema de Mário Quintana chamado “O encontro”, do livro “Baú de espantos”:
 
“Subitamente
na esquina do poema, duas rimas
olham-se, atônitas, comovidas,
como duas irmãs desconhecidas...”
 
            Naquela pergunta aparentemente prosaica estava a configuração de uma possibilidade que geralmente não é tradicionalmente prevista, o encontro de “duas irmãs desconhecidas”. Respondi a ela que podia, sim, mas... que não era uma construção aceita em concursos de trova. Que ela até fizesse trovas com essa rima linda (e não é linda? céu/corcel... já imaginou quantas possibilidades semânticas?), mas para publicar na internet ou em livro, não para os Concursos de trova e Jogos Florais da UBT.
 
            Alguns decerto argumentariam que há regiões em que o “l” final é pronunciado como consoante alveolar e não como “u”. É verdade, mas isso de modo algum invalida a prosódia da maioria dos brasileiros. Se fosse o caso de comissões organizadoras estudarem a possibilidade de aceitar esse tipo de rima, não custaria lembrar que a língua portuguesa possui variantes e que aceitar as variantes é abrir seus horizontes para outras possibilidades.  E quando falo em variantes, reporto-me apenas ao Português falado no Brasil, naturalmente distinto do uso lusitano, fato reconhecido por autores de prestígio e que já se tornou um truísmo. No prefácio de sua Nova Gramática do Português Contemporâneo, assim se expressam Celso Cunha e Lindley Cintra sobre o objetivo da obra:
 
“Como esta gramática pretende mostrar a superior unidade da língua portuguesa dentro da sua natural diversidade, particularmente do ponto de vista diatópico, uma acurada atenção se deu às diferenças no uso entre as modalidades nacionais e regionais do idioma, sobretudo às que se observam entre a variedade nacional européia e a americana.”
 
            Assim, mesmo que o “l” pós-vocálico em final de palavras seja realmente articulado com a língua tocando o céu da boca, não é essa a pronúncia majoritária no Português Brasileiro. Nem falo em Portugal, porque a variante portuguesa não se impõe como norma para nós, falantes brasileiros, que temos a nossa própria norma. Embora em partes do sul do Brasil o “l” final seja pronunciado como “l”, a pronúncia corrente do restante do país é distinta. Assim, coexistem no Brasil duas pronúncias para o “l” final: como consoante alveolar, pronunciada com a ponta da língua tocando o céu da boca, como se faz em espanhol, por exemplo, e com som de “u”, articulado como semivogal de ditongo oral decrescente.
          
            Alguns associados da União Brasileira de Trovadores, a entidade que congrega a maior parte dos cultores da trova no Brasil e promotora dos Jogos Florais e Concursos de Trovas mais importantes, poderiam argumentar, com justeza, que o “decálogo” de metrificação da entidade, elaborado por seu fundador, Luiz Otávio, não contempla essa possibilidade de rima e que uma trova em que houvesse rima céu/batel ou Brasil/viu, por exemplo, jamais seria premiada em um concurso promovido pela entidade. De fato, mas havemos de cogitar dois fatores dignos de nota: o decálogo é apenas uma orientação para regulamentar os concursos da entidade e não para “regulamentar” a “inspiração” de ninguém. Assim, se alguém desejar empregar uma rima “não canônica”, tem todo direito de fazê-lo, até porque a trova é sua, não pertence a ninguém além de seu próprio autor, dono intelectual de seu trabalho artístico. Outro pormenor: Luiz Otávio elaborou o “Decálogo de Metrificação” baseado em obras disponíveis em seu tempo, na maioria tributárias de textos do século XIX e, portanto, frutos de análises que não contemplavam os fatos mais recentes da língua portuguesa falada no Brasil.
 
            Lembremo-nos de que, para Hênio Tavares, “rima é a identidade ou semelhança de sons no final ou no interior dos versos, nos ictos das palavras” (Teoria Literária. Belo Horizonte, Editora Itatiaia, 1978, página 212). Celso Cunha, na gramática supracitada, apresenta definição semelhante, ao afirmar que rima é a “identidade ou semelhança de sons em lugares determinados dos versos.” (p. 711) O professor Evanildo Bechara (Moderna Gramática Portuguesa. Rio de Janeiro, Editora Nova Fronteira, 2009, p. 640) assim se expressa: “Chama-se rima a igualdade ou semelhança de sons pertencentes ao fim das palavras, a partir da sua última vogal tônica”.
 
            Assim sendo, é perfeitamente legítimo o uso que José Ouverney faz na seguinte trova, em que o poeta rima mal com pau. Certíssimo:
 
Certo cupim se deu mal
pois um dia aconteceu:
era tão "cara-de-pau",
que outro cupim o comeu!
 
            Da mesma forma, Nélio Bessant:
 
O conhaque, é bem verdade,
levanta mesmo a moral
daqueles que estão na idade
da bandeira a meio pau
 
            Mais recentemente eu também resolvi fazer algumas experimentações:
 
Há almas cheias de fel,
cujo rancor as emperra...
- Almejam vida no Céu
sem merecer nem a terra...!
 
Tento esconder como estou,
mas Saudade não tem jeito:
- Tua Ausência faz um gol...
e rasga a rede em meu peito!
 
            Assim, respondo à pergunta que é o título deste ensaio: “SIM! PODE! Aliás, DEVE!” Céu com corcel, alma com trauma, mau com fatal, febril com partiu... As possibilidades são infinitas. Note que em “alma” o “l” também é pronunciado como “u”, caso em que não aparece no final da palavra, mas em final de sílaba e sem vogal posterior.
 
          A poesia se constrói com inovações. A língua é viva porque é falada por uma comunidade que faz seu uso de acordo com as preferências.  Se esse tipo de construção não é aceita em concursos, paciência! Quem perde não é o poeta que deixa de participar de concursos com trovas criativas. Quem perde é o concurso porque deixa de recebê-las...