CUIDADO, QUE O CARA É CHATO!   
 (José Ouverney, 27.08.2014. Veja mais textos do autor em http://www.falandodetrova.com.br/ouverneyconverso)

 
     Se alguém lhe disser que eu sou um cara encrenqueiro, ranzinza, não acredite. As pessoas têm a mania de confundir aquele que gosta das coisas corretas com aquele que adora uma confusão. Metódico? Sim, por que não?
 
     Em minha vida aprendi esta lição. Toda vez que chegaram até mim e disseram: “cuidado com fulano, porque ele é chato, ranzinza e por qualquer coisa solta os cachorros em cima da gente”, eu chegava morrendo de medo, “pisando em ovos”, como se diz, até descobrir que a pessoa pretensamente chata e mal-humorada não passava de um tremendo “boa praça”, brincalhão, inteligente e... muito correto. Esta, diga-se de passagem, é a palavra-chave que parece afugentar a maior parte das pessoas nascidas em solo verde e amarelo.
 
     Com o Professor Lauro Silva não foi diferente. Ele devia ter seus 65 anos quando o conheci. Graças ao poeta Walter Leme, que me levou até à residência desse ilustrado filho de Pindamonhangaba, que ficava situada na Rua Dr. João Romeiro, quase na esquina com Gustavo de Godoy. Cheguei morrendo de medo, pois diziam cobras e lagartos a respeito de seu mau-humor e de sua impaciência no trato com as pessoas.
 
     Mas qual não foi meu espanto. Que criatura maravilhosa! Sem nunca ter me visto nem ouvido falar de mim (eu tinha mais ou menos vinte anos), teve comigo e com o Walter uma conversa muito prazerosa; brincou, contou coisas engraçadas e até apimentadas; revelou particularidades de sua vida; mostrou-nos a casa toda... Como proprietário da maior biblioteca particular de que se tinha notícia, sua casa era entulhada de livros. Embaixo da cama, dentro do banheiro, no quintal... Em todos os lugares que você possa imaginar.  Saí de lá adorando tê-lo conhecido e eternamente grato ao Walter Leme, por haver me levado até ele.
 
     Quando o Professor Lauro Silva faleceu, no dia 03 de outubro de 1978, fiz questão de acompanhar seu féretro. Que tristeza! Não havia quase ninguém acompanhando o cortejo. Certamente por ele ter sido um homem “mal-humorado, briguento, chato”...  Bem o retrato do que imagino possa também ocorrer comigo, no dia em que me for.  O que me faz sempre lembrar daquele surrado chavão:  quer saber?  “Antes só do que mal acompanhado”, rs!
 
     Hoje ocupo a cadeira n° 33 da Academia Pindamonhangabense de Letras, cujo patrono é o ... Professor Lauro Silva!  Poderia eu ter sido agraciado com maior bênção?  Falar nisso... A sua bênção, Professor Lauro Silva!
 
Vivo amargando o queixume
da dor que não mereci:
sentir de longe o perfume
de uma flor que não colhi.
LAURO SILVA
Nossa mente as asas solta,
embora sem esperanças.
-- O passado nunca volta,
mas sempre manda lembranças...
LAURO SILVA