A RELATIVIDADE DOS PRÊMIOS

 

     Acredito que todos os trovadores devem saber de cor a primeira estrofe do poema “Autopsicografia”, de Fernando Pessoa:

O poeta é um fingidor,
finge tão completamente,
que chega a fingir que é dor
a dor que deveras sente.

     Alguns, de memória mais abrangente, talvez recordem as duas estrofes finais: E os que lêem o que escreve, na dor lida sentem bem, não as duas que ele teve, mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
gira, a entreter a razão,
esse comboio de corda
que se chama coração.

     Também são famosos os seguintes versos do livro “Mensagem”, com o qual Fernando Pessoa obteve o 2º. Lugar (!!!) num concurso de poesia realizado em 1934:

            MAR PORTUGUÊS

Ó mar salgado,
quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!
Valeu a pena?
Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.

     A crítica é unânime ao reconhecer Fernando Pessoa como o mais importante poeta de língua portuguesa do século XX. No entanto, nunca obteve o devido reconhecimento em vida. Somente publicou um livro, que é o supracitado “Mensagem”.

     Alguém sabe quem foi o poeta que levou o 1º. Lugar no concurso em que Pessoa obteve o 2º.? Se procurarmos referências no google, por exemplo, não vamos encontrar e somente em obras de historiadores da literatura que vamos, talvez, achar alguma referência.      Seja quem for, seu nome caiu no esquecimento.

     Nem sempre os verdadeiros talentos são devidamente reconhecidos, e muitas vezes os premiados caem no esquecimento.      No cinema, o caso mais esdrúxulo neste respeito diz a Charles Chaplin. Chaplin foi o maior cineasta de todos os tempos e, inquestionavelmente, um gênio. Dirigia, roteirizava, atuava e compunha a trilha sonora! Tudo com brilhantismo e com grande qualidade. Quem não se lembra das inesquecíveis melodias de “Smile” e “Limelight”?      Durante décadas, Chaplin foi ignorado pela “indústria” do Oscar. Nunca foi sequer indicado para receber uma estatueta, o prêmio mais cobiçado do cinema. Somente em 1972, aos 83 anos (!), ele recebeu um Oscar Honorário pelo conjunto de sua obra, conforme pode ser visto no vídeo a seguir:

http://www.youtube.com/watch?v=J3Pl-qvA1X8

     No Brasil, talvez lembremos o caso de Fernanda Montenegro, indicada para o Oscar de melhor atriz em 1999 pelo filme “Central do Brasil”. Não levou. Lembremo-nos de que jamais um ator brasileiro ganhou o Oscar. Nunca houve um que merecesse?      Na literatura, lembramos que nunca um brasileiro ganhou o Prêmio Nobel de Literatura e que José Saramago foi o único autor de Língua Portuguesa a ganhá-lo, o que só ocorreu em 1998. Jean-Paul Sartre, embora um dos maiores autores de Língua Francesa de todos os tempos, não dava importância a prêmios e recusou o Prêmio Nobel em 1964.

     Em 1988 foi instituído pelos governos do Brasil e de Portugal o “Prêmio Camões”, atribuído aos autores que tenham contribuído para o enriquecimento do patrimônio literário e cultural da língua portuguesa. Considerado o mais importante prêmio literário destinado a galardoar um autor de língua portuguesa pelo conjunto da sua obra, o Prêmio Camões é atribuído anualmente, alternadamente no território de cada um dos dois Estados, cabendo a decisão a um júri especialmente constituído para o efeito. O prêmio consiste numa quantia pecuniária resultante das contribuições dos dois Estados, fixada anualmente de comum acordo.

     O escritor moçambicano Mia Couto é reconhecido internacionalmente como um dos mais importantes autores de língua portuguesa do mundo. Até hoje ainda é ignorado pelo Prêmio Camões. Por outro lado, José Luandino Vieira, de Angola, recusou o Prêmio Camões em 2006.      A Academia Brasileira de Letras é órgão lingüístico e literário máximo do Brasil, fundada em 1897 por Machado de Assis. Célebres são os casos de grandes escritores que foram ignorados pela Academia, enquanto ela abrigou políticos, clérigos e militares sem talento literário. Emílio de Menezes, Carlos Drummond de Andrade, Monteiro Lobato e Mario Quintana são exemplos de grandes autores brasileiros que foram ignorados pela Academia. Alguém já leu algo relevante de Getúlio Vargas, do General Aurélio de Lira Tavares ou de Ivo Pitanguy?

     Na Trova, o mundo encantado em que vivemos, um caso pitoresco é o de Antônio Carlos Teixeira Pinto, hoje radicado em Brasília – DF. Sua mais famosa trova humorística é a antológica trova da Raimunda:

Num enterro de segunda
houve grande confusão:
uma parte da Raimunda
foi por fora do caixão...

     Embora circule uma história apócrifa por aí sobre um suposto concurso em Minas Gerais, esta trova nunca foi premiada! E não é uma das melhores trovas humorísticas que nós conhecemos? Quantas trovas que hoje sabemos de cor que nos concursos em que foram premiadas obtiveram menção honrosa ou menção especial, enquanto vencedoras caíram no esquecimento?      A seguinte trova de Pedro Ornellas é antológica, mas não foi a grande vencedora do concurso em que foi premiada:

Se canto a felicidade,
sou poeta imaginando...
Mas quando falo em saudade,
eu sei do que estou falando!

     Pedro Ornellas, João Freire Filho, Sérgio Ferreira da Silva, Edmar Japiassu Maia, José Ouverney estão entre os “Magníficos” de Nova Friburgo. Merecidamente, diga-se de passagem. Mas outros grandes trovadores não se tornaram magníficos. Coisas da vida... Almerinda Liporage, a Tita, seis vezes primeiro lugar em Nova Friburgo não logrou ser Magnífica. Igual à Tita, Zaé Júnior, Divenei Boseli, Marina Bruna, Darly O. Barros, Héron Patrício e Neide Rocha Portugal, por exemplo, estão entre os maiores Trovadores vivos da UBT. Não são Magníficos em Nova Friburgo. Isto não é um desperdício?

     Os concursos não são o ideal para a divulgação da Trova, mas são eles que mantém a UBT ativa. Dada a grande participação dos trovadores, com centenas de trovas recebidas em um único concurso, a premiação de 15 (em média) é razão de algria para qualquer um.      Ainda assim, podemos dizer que a premiação é algo relativo. Há grandes trovadores que não estão participando de concursos atualmente e algumas trovas premiadas... são de amargar! Alguns talvez não saibam diferenciar uma boa trova de um clichê e acabam dando notas a trovas terríveis.

     Mesmo um grande trovador pode ter seus momentos infelizes. A pressa dos prazos às vezes impede uma pessoa de burilar uma trova e acaba levando um trovador a enviar uma trova mais “fraca”, digamos assim. Não raro, a trova é premiada assim mesmo...

     Volto, então, ao assunto a que já me referi em outro texto: para que, então, serviriam os rankings de trovadores premiados se os prêmios nem sempre são reveladores dos verdadeiros talentos...?   Os novos trovadores, de quem a UBT tanto carece para não minguar, não podem ser desestimulados pela competição acirrada?

     Acredito que ainda vamos evoluir.

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NOTA: O Professor Pedro Mello, 31 anos, é um dos jovens talentos da Trova brasileira, além de um de seus mais ardorosos amantes.