Antonio Carlos Teixeira Pinto
ANTONIO CARLOS TEIXEIRA PINTO nasceu em Campos/RJ, filho do também poeta Pedro Teixeira Pinto e de D. Maria da Silva Pinto. Fez seus primeiros estudos em Ubá/MG. Colou grau em Direito na "Federal" de Juiz de Fora. Publicou em 1961 o livro "Orvalho da Manhã". "Magnífico Trovador" em todos os âmbitos, é um dos mais competentes trovadores brasileiros. Atualmente reside em Brasília.
TROVAS LÍRICO/FILOSÓFICAS
Eu não consigo, alvorada,
de forma alguma entendê-la: (1º lugar em Pouso Alegre, 1995)
a cada flor despertada,
ter de morrer uma estrela.
Tinha no olhar tanto brilho, (3º lugar em Pouso Alegre - 1998)
tal força nos firmes passos,
que não carregava um filho:
- levava o mundo em seus braços!...
Eu te amo! E ainda perguntas
se há jura em minhas respostas...
Não vês que as nossas mãos juntas
valem mais do que mãos postas?
Por mais que seja insensata
minha forma de viver,
bendigo a dor que me mata,
mas deixa o verso nascer...
Fibra, amor, eu tive um dia:
foi triste a separação...
- Apertei-te a mão vazia
e enchi de adeus minha mão!
A noite é de apoteose
pois, no horizonte, o luar (3º lugar Pouso Alegre 1999)
alveja a linha que cose,
ponto a ponto... céu e mar!
Ah, por favor, não me peças
promessas, que me pões tonto... (Vencedora em Niterói - 2005)
- Quem ama não faz promessas,
entrega-se todo... e pronto!
...Aí chegou a saudade,
foi apertando... apertando...
quando doeu de verdade,
peguei o orgulho chorando!
Se tu jamais foste minha, (Menção Honrosa Rio de Janeiro - 1994)
se nunca fui teu também,
posso ir só, que irás sozinha...
Ninguém perde o que não tem!
Ruinas, teias de aranha,
o silêncio do quintal...
Se esta dor não me acompanha,
o abandono era total...
Pudesse, mãe, a lembrança
recompor o antigo lar...
Eu -- voltar a ser criança;
você... somente voltar!
Não dou revide ao seu gesto,
por esta simples razão:
- pesa bem mais que o protesto
a leveza do perdão!
Luiz Otávio, eu me lembro...
Friburgo em maio, como era:
- jamais esperou setembro,
para entrar na primavera !
Minha mãe não teve escola,
sempre a lutar, noite e dia,
mas a vida lhe deu cola
de toda a sabedoria!
Faltou-me talvez coragem,
e, por medo de chorar,
não abri sua mensagem.
- E ela queria voltar...
Nosso amor é um retrocesso,
pelo orgulho que nos cega:
- eu desejo... mas não peço;
ela quer... mas não se entrega.
Eu creio que ninguém vai
no meu dilema dar jeito,
pois a lágrima que cai
está vazando é do peito !
Eu trouxe tanta saudade,
tanta saudade deixei,
que há um dilema de verdade:
será que eu vim, ou fiquei ?!
Nos meus dias mais tristonhos,
do peito rompendo a grade,
a procissão dos meus sonhos
desce a rua da saudade.
(Conjunto de 05 trovas do tema "Portão", 2º lugar entre os Magníficos: Nova Friburgo/1998):
Nossas letras iniciais,
no centro do coração,
também são restos mortais
de um carcomido portão!
O abandono era patente,
no abraço da solidão:
- duas voltas de corrente
num velho e tosco portão...
Era aqui! Lembro-me bem...
Ainda é o mesmo portão.
"Cuidado! Vem vindo alguém"
-E eu soltava sua mão!
Olho o portão ... vejo as horas
nem sei há quanto te espero,
ansioso - porque demoras,
sofrendo - porque te quero!
Seu adeus, naquela hora,
revelou-a para mim:
- quem quer de fato ir embora
não bate o portão assim!...
TROVAS HUMORÍSTICAS
Num enterro de segunda
Houve tanta confusão
que uma parte da Raimunda
foi por fora do caixão...
As perucas diferentes,
que a vaidade lhe requer,
dão-me adultérios freqüentes
com minha própria mulher!
"- Minha vida é um livro aberto!"
diz ela, abrindo o pijama.
E o maridão, muito esperto:
- Eu adoro ler na cama!" l
A noivinha vaporosa
fita o noivo e se atordoa:
- De um pijama cor-de-rosa
não vai sair coisa boa..."
Ao voltar antes da hora,
acha a mulher se benzendo...
nem percebe que, lá fora,
seu pijama sai correndo!
Durante o pagode inteiro,
foi aquele repeteco:
ela - agitando o pandeiro;
e eu atrás... no reco-reco!
Num pagode, ao se vingar,
colou na sogra o lembrete:
"Se acaso o bumbo estourar,
podem baixar-me o cacete!"
O regime é semi-aberto
um modelo de prisão...
- Gente! Ali, quem for esperto,
não deixa a cadeia, não!
Passou na cadeia um mês...
E, com saudades da cela,
veste-se, hoje, de escocês
e pôs grade na janela.
"Isso é hora de chegar?!
E molhado!..." - ela reclama.
"por que não dormiu no bar?"
"Vim pegar o meu pijama".
Queria vencer na vida,
só faltava um "empurrão"
que veio... em plena Avenida,
na frente de um rabecão!
Com mulher sempre se alterna
minha sorte, eis a questão
- Quando uma me passa a perna,
outra me deixa na mão!
Ao receitar-me o doutor
prova de esforço, na esteira,
senti no peito um tambor,
de tanto pensar besteira!
Toda a minha teimosia
em me calar, foi em vão,
porque, na Delegacia,
me deram voz... de prisão
No meu prédio, o rebuliço
ganha maior consistência,
quando a entrada de serviço
é saída de emergência !
Minha sogra é mesmo o fim.
Eu digo e tenho vergonha:
duvida tanto de mim
que acredita na cegonha.
Com quantos paus, finalmente, (Menção Especial em Porto Alegre - 1993)
faz-se a canoa? - Ora essa,
no sufoco muita gente
com um só... faz coisa à beça!
Alguém, distraidamente, (1º lugar Conc. Magníficos Friburgo 1994)
ao notar a procissão,
se apavorou: "Corre, gente,
que lá vem outro arrastão!"
Eu como demais, não minto; (Nova Friburgo - 2005)
e que sede! Bebo bem...
Na verdade, sou faminto
e “sedentário” também.
Faminto, implora comida; (Nova Friburgo - 2005)
quer comer a noite inteira...
- E eu só sei que essa pedida
assanhou a cozinheira!
Quando é bem forte a topada, (Nova Friburgo - 2002)
quem puder que fique mudo...
- É melhor não falar nada
que dizer... aquilo tudo!
Xingar, após a topada, (Nova Friburgo - 2002)
faz até bem; sempre ajuda.
E como, meu camarada!
-Essa velhinha... era muda ! ! !
Topada feia! Pois é... (Nova Friburgo - 2002)
não tive colher de chá:
- o dedão veio no pé,
mas a unha... ficou lá!
De certa caça ele guarda (Menção Especial no Rio de Janeiro - 1994)
saudosa recordação,
pois, hoje, a sua espingarda
aponta só para o chão!
A funerária vivia
com o movimento bem fraco... (3º lugar em Nova Friburgo - 1972)
E como ninguém morria,
a firma foi pro buraco!
