A   RELATIVIDADE   DOS   PRÊMIOS

     Muitos trovadores se queixam (e com razão) da qualidade duvidosa de muitas trovas humorísticas que são premiadas anualmente. Realmente, certas trovas “humorísticas” dão vontade de chorar. Concordo absolutamente com essa constatação. Talvez possamos formular algumas hipóteses para tentar compreender o fenômeno:  

    1.      O HUMOR É MAIS DIFÍCIL

      De fato, fazer trova humorística requer “dom”, digamos assim. Alguns dos maiores mestres da trova humorística já não estão entre nós: José Maria Machado de Araújo, Nei Damasceno, Luiz Pizzoti Frazão... Atualmente alguns (vivíssimos, Graças a Deus!) ainda nos brindam com pérolas do gênero: Edmar Japiassu Maia (o maior vulto da Trova Humorística vivo), A. A. de Assis, Sérgio Ferreira da Silva (atualmente sem participar de concursos), Pedro Ornellas (atualmente sem participar de concursos)... Resumindo, poucos têm real talento para trova humorística. Mesmo entre os que têm talento, há momentos de “falta de inspiração”. Seja para fazer “cócegas na inteligência” (como diria Leon Eliachar), seja para a comédia do tipo pastelão, fazer rir não é um dom de todos.  

    2.      ALGUNS TEMAS NÃO AJUDAM

      Alguns temas dados para trova humorística além de não ajudar, até prejudicam. Claro que este é um julgamento muito subjetivo, mas alguns temas por si só fazem alusão a chistes de natureza sexual ou escatológica, o que induz a grande maioria dos participantes ao clichê e ao humor de gosto duvidoso.

     3.      O VELHO PROBLEMA DAS ANEDOTAS.

      Muitos trovadores aproveitam anedotas e as transformam em trova. Às vezes isso é realizado com “sucesso”. Outras vezes nem tanto. Como definir o que é piada e o que não é? Seja como for, transformar piadas velhas e surradas em trovas é a mesma coisa que dizer numa trova lírica “a tristeza que me invade”. Ninguém agüenta mais! É o cúmulo do lugar-comum, do boçal, da mediocridade!   

   4.      COMISSÃO JULGADORA.

      Algumas comissões poderiam ser chamadas de “comichões” em vez de “comissões”, porque seus gostos nos dão coceira! Trovas inteligentes muitas vezes "não são compreendidas" e são premiadas as ditas banalidades que vemos pululando por aí aos borbotões. Em alguns casos, certas comissões são formadas por trovadores e não-trovadores, na maioria das vezes personalidades do município. Esse não é, entretanto, um problema intrínseco: há pessoas que não fazem trova, mas que têm cultura ou sensibilidade para perceber uma boa obra de arte, enquanto há trovadores que não têm esse discernimento. De qualquer modo, as comissões julgadoras poderiam, em muitos casos, passar por um refinamento: Há trovas humorísticas excelentes que não “passam” pelo crivo de uma comissão julgadora porque não as compreendem ou porque nutrem preconceitos contra inovações. Há banalidades grosseiras que são premiadas. Comissões realmente qualificadas não prestariam desserviços à Trova como algumas têm prestado.

     Essas possíveis causas que elenquei acima poderiam ser modificadas de acordo com a experiência pessoal do trovador, mas tudo isso evidencia o quão relativos são os prêmios e o quanto precisamos valorizar as trovas e não as premiações dos trovadores.

     Vejamos um exemplo concreto:

Amigo/amiga, reparto
este espanto com você:
o parto não é mais parto;
é download de bebê.

     Essa jóia de trova humorística é da autoria de A. A. de Assis, o grande trovador fluminense radicado em Maringá.      Note que ele (um homem de 70 e poucos anos bem vividos) é um espírito evoluído e moderno, capaz de conceber uma trova criativa, que documenta em tempo real uma variação diacrônica do Português Brasileiro no século XXI.      Apesar disto, ouso afirmar que esta pérola de trova jamais seria premiada em nenhum de nossos concursos de trova ou Jogos Florais. Estaria fora dos “rankings” que existem na UBT e não ganharia os tão cobiçados (por muitos, não pelo Assis) “pontinhos” que valem novos troféus...

     Por que afirmo de forma tão categórica que nunca seria premiada?

1.      O PRIMEIRO VERSO FOGE DA TRADIÇÃO: “Amigo/Amiga”. Para alguns desatentos e não-conscientes da evolução do Português a escolha do Assis poderia parecer uma “cavilha”. Talvez lhes parecesse desnecessário “amigo/amiga”, porque foge do usual do verso metrificado. (O que seria uma visão equivocada: o verso alexandrino, tão incensado por muitos, é um convite à adjetivação exagerada, o que não deixa de ser “excesso”.) Na realidade a escolha do Assis é extremamente acertada e lingüisticamente genial: ele faz uso de um tom discursivo, oralizante e, propositalmente, reproduz a fala. Soa como o início de uma conferência: “Senhoras e senhores...”. Nota 10 pela perspicácia.      

2.      O EMPREGO DE UM ESTRANGEIRISMO. Mesmo alguns trovadores de mentalidade mais aberta (ou menos fechada, depende o ponto de vista...) não dariam nota para uma trova desta natureza. Até imagino a frase: “A trova é boa, mas não para um concurso...” Existe diferença? Por que o preconceito? Como de maneira geral as gramáticas normativas condenam o emprego de estrangeirismos, a tendência natural das pessoas é agir como papagaios: repetir o “saber consagrado” sem reflexão. Em vez de ser um “barbarismo”, o estrangeirismo (quando não for um entrave à comunicação) enriquece a língua. Quem não sabe o que é um “download”? Só quem está à margem da informatização do planeta.      

3.      O ÚLTIMO VERSO PODERIA ESTAR “QUEBRADO”.    O Assis contou a palavra “download” como trissílaba. Essa é uma questão controversa. Na palavra “download” ocorre um caso clássico de “paragoge”. Paragoge, para quem não sabe, é um acréscimo de um fonema (pode tanto ser vocálico como consonântico) no final de uma palavra, metaplasmo perfeitamente natural, inclusive na evolução do latim para a língua portuguesa. A palavra portuguesa “antes” vem do latim “ante”. Na passagem do latim para o português medieval, a palavra ganhou o “s” final, que mantém até hoje. Alguém poderia argumentar que no exemplo citado o fonema consonantal não alterou o número de sílabas e que "não existe sílaba sem vogal". Certo. "Todavia", palavras como “chic” (galicismo) e “lunch” (anglicismo), ao se aportuguesarem “chique” e “lanche”, tiveram sua "grafia" adaptada às normas ortográfica do Português, mas "mantiveram sua pronúncia inalterada", porque o “c” final de “chic” e o “ch” final de “lunch” são fonemas consonantais pronunciados e assim permanecem. O aportuguesamento apenas documentou um fenômeno fonético. No caso da palavra “marketing”, por exemplo, o mesmo não aconteceria porque o “g” final desta palavra não é pronunciado. No caso de “download”, o “d” final é pronunciado, o que levou o autor a contá-lo como sílaba poética. Ainda assim, “não existe sílaba sem vogal”. Já escutei essa afirmação de várias pessoas, porque assim consta na “gramática”, esse arcabouço de conhecimento “esotérico”. Por acaso não há uma vogal final não escrita, mas pronunciada? Quando lemos “d”, na verdade não lemos “de” ou “dê”? O som é o mesmo... Se aportuguesássemos a palavra “download”, talvez tivéssemos “daunloude”. Aí ninguém contestaria a contagem trissilábica. Tudo por causa da ortografia. Porém, independentemente da grafia, o “e” paragógico aparece, seja visível, seja invisível. Em 1998, o saudoso Walter Rossi, então Presidente da “Casa do Poeta ‘Lampião de Gás’ de São Paulo”, organizou uma antologia de sonetos de membros, para comemorar o cinqüentenário da “Casa”. Pois note o verso de um lindíssimo soneto de Darly O. Barros: “Quando Chopin ecoa do CD”. QUAN / DO / CHO / PIN / E / CO / A / DO / C / D/. O verso da Darly é um decassílabo perfeito. Veja a palavra “CD”... Seria premiado em um concurso organizado por membros da UBT? Tenho dúvidas...

     Teço essas considerações para refletir sobre como questões importantes de linguagem têm sido escamoteadas por julgadores de concurso de trova. Nem sempre a originalidade e a vivacidade são bem-vindas... E o lugar-comum, o banal, o boçal, o medíocre, o mau-gosto, o kitsch permanecem firmemente enraizados, aplaudidos e premiados...

     A Língua evolui porque é dinâmica e viva e pertence a um povo vivo. Por que nossas cabeças não evoluem também? Por que, em vez de darmos tanto valor aos prêmios, aos troféus, aos “rankings”, aos “pontinhos” por trova, não damos o real valor... à TROVA?

 

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NOTA: O Professor Pedro Mello, 31 anos, é um dos jovens talentos da Trova brasileira, além de um de seus mais ardorosos amantes.