A ENCRUZILHADA - de Pedro Mello

[ Antes, para que você entenda melhor o texto abaixo, leia o que o Xavier propõe, clicando AQUI ]
 

        Gosto de J. B. Xavier não apenas pelo trabalho que tem feito (e que o gabarita para, no futuro, postular a presidência da Seção São Paulo, embora ele seja avesso a essa hipótese) como também pelas ideias e os debates que promove com elas.      Xavier equilibra dois lados antagônicos: o artista e o empresário. Como artista tem visão de empresário, ao insistir no tema da renovação da entidade, e como empresário tem a visão do artista, ao ser mecenas da UBT, patrocinando os prêmios do concurso anual da Seção de São Paulo.

        Nosso amigo J. B. tem externado sua preocupação com o futuro da UBT e sua preocupação é justa. Com a visão da renovação vertical e horizontal, creio que ele “matou a charada”: há, sim, uma renovação no sentido de que a entidade até saiu do Brasil (semanticamente é um paradoxo falar-se em União “Brasileira” em países hispânicos, mas ainda não se formou uma nova entidade que congregue os trovadores de língua espanhola e, por pudor histórico, nem é cogitada uma mudança de designação da UBT), a que ele chama de renovação “horizontal”. Mas não temos propriamente uma renovação ostensiva em sentido “vertical”, isto é, o surgimento de novas gerações nas próprias delegacias e seções existentes. Sinto, porém, que as ideias elencadas por Xavier não estão sendo plenamente compreendidas por alguns. Houve até quem não gostasse do último texto de sua autoria, com o sugestivo título “Por que um adolescente frequentaria a UBT?”, publicado no Informativo da UBT São Paulo, no site “UBTrova” e no site “Falando de Trova”. Diante de algumas reações, notei que o cerne da questão ainda não foi devidamente dissecado e, hipoteticamente, alguém poderia prender-se a aspectos “cosméticos” do texto.

        Acho que algumas reflexões se fazem oportunas.

        Primeiro: Quando Xavier tenta reproduzir no primeiro parágrafo a linguagem falada dos adolescentes, ele não está usando essa variante linguística como modelo de como deveria ser o linguajar da UBT para conquistá-los. Equivocar-se-ia quem porventura entendesse assim. Ele a usa como exemplo de como se comunica o adolescente e, de certa maneira, de quais são os seus interesses. A linguagem é uma atividade e, como tal, está impregnada dos valores de seus usuários. Xavier demonstra, com o exemplo em questão, que há um abismo entre os trovadores e o público jovem que deveria ser seu foco e de onde virtualmente podem sair aqueles que conduzirão a entidade século XXI adiante. Os primeiros Jogos Florais foram realizados em 1960. A UBT foi fundada em 1966 e sua primeira diretoria foi empossada em janeiro de 1967, há exatos 45 anos, portanto. Naquela época, a UBT era jovem. Muitos já se foram. Daqueles tempos, poucos ainda resistem. A maioria que está ativa é dos anos 80 e 90. Houve uma renovação até meados dos anos 90, mas os associados, mesmo os mais recentes, são pessoas maduras. Culturalmente nós medimos as gerações por décadas. Assim, o que Xavier questiona nos conduz a uma reflexão importante: os trovadores mais jovens da UBT, com exceção dos potiguares, são nascidos na década de 60. Nossos melhores e mais jovens trovadores: Antônio de Oliveira, Arlindo Tadeu Hagen, Sérgio Bernardo e Sérgio Ferreira da Silva, todos nascidos nos anos 60. Portanto, Xavier está certíssimo: falta renovação, sim! A nossa renovação é horizontal e não vertical. Não há trovadores do mesmo nível deles nascidos nos anos 70, 80 ou 90. E me perdoem aqueles que não gostarem desse termo “nível”, mas isso também é relevante: a UBT não se faz apenas com trabalho “braçal”, de oficinas, palestras e quaisquer outras atividades importantes de divulgação. A UBT também se faz com boas trovas, com grandes trovas, que são o nosso cartão de visitas para o público; são as grandes trovas, as poeticamente bem feitas, as estilisticamente expressivas que mostram ao público que a trova cultivada pela UBT não é folclore nem curiosidade popular. Quem dá palestras sabe disso: o público gosta de boas trovas líricas e trovas humorísticas engraçadas e inteligentes. Eu já dei diversas palestras sobre a trova e o público sempre aprecia as trovas que eu uso como exemplo. Note os trovadores que frequentemente cito em minhas palestras: Waldir Neves, José Maria Machado de Araújo, Elton Carvalho, Durval Mendonça, Colbert Rangel Coelho, Zálkind Piatigorsky, Luiz Pizzotti Frazão, Eno Teodoro Wanke, Eugênia Maria Rodrigues, Vasques Filho, Walter Waeny, Lavínio Gomes de Almeida, Aprígio Nogueira, Archimino Lapagesse, Aloísio Alves da Costa, Arlindo Tadeu Hagen, Edmar Japiassu Maia, Antônio Carlos Teixeira Pinto, Sérgio Ferreira da Silva, Sérgio Bernardo, Pedro Ornellas, Therezinha Dieguez Brisolla, Heloísa Zanconato, A. A. de Assis, Neide Rocha Portugal, Darly O. Barros, Divenei Boseli, Zaé Júnior, Almerinda Liporage, Cidoca da Silva Velho, Selma Patti Spinelli, Renata Paccola, Marina Bruna, Alba Christina Campos Netto, Campos Sales, Héron Patrício, Rodolpho Abbud, Marilúcia Rezende, Edna Ferracini, Gilvan Carneiro, Eduardo Toledo, Maria Thereza Cavalheiro e José Ouverney. Se você teve a pachorra de contar, contou 43 trovadores. Cada um desses tem, pelo menos, uma grande trova, seja lírica ou filosófica, seja humorística. Desses 43 que citei, sabe quantos estão vivos? 28. Desses 28, sabe quantos têm menos de 50 anos? 5.

        Segundo: Há de se ter um opinião equilibrada sobre as coisas: dizer que a “UBT vai mal” ou “vai bem” é pura retórica. A UBT encontra-se numa encruzilhada, não por seus próprios méritos ou por eventual falta deles, mas pelo nosso momento histórico. Temos um momento histórico contra nós. Pense nos grandes poetas brasileiros do século XX: Hilda Hilst (falecida em 2004), João Cabral de Melo Neto (falecido em 1999), Carlos Drummond de Andrade (falecido em 1987), Vinícius de Moraes (falecido em 1980), Manuel Bandeira (falecido em 1968), Cecília Meireles (falecida em 1964). Agora tente se lembrar de um nome da mesma envergadura que esteja vivo. Você se lembrará de Ferreira Gullar, que fará 82 anos em setembro de 2012, nascido, portanto, ainda na primeira metade do século XX. Mais algum? Force a memória. Alguém mais novo, mais finissecular? Na prosa ou no teatro, nossa memória se lembrará de Dias Gomes (falecido em 1999), Rubem Braga (falecido em 1990) ou Nelson Rodrigues (falecido em 1980). Vivos estão Lygia Fagundes Telles e Dalton Trevisan (bem idosos, por sinal). Na música quero citar apenas o nome de Tom Jobim, que faleceu 1994, portanto há quase vinte anos. Há outro compositor da mesma envergadura em atividade? Principalmente, alguém que represente uma “renovação”? Parece que a resposta para as nossas perguntas será sempre a mesma: não. Mesmo avançados na segunda década do novo século (não tão novo, portanto), parece que vivemos num momento histórico de transição, como sói acontecer com todo final e início de século. Não podemos dizer transição para onde, porque nosso início de século é mais pobre que o fim do século XIX e o início do século XX. Tchaikovsky morria em 1893, quando Prokofiev era um bebê de 2 anos. Em 1908 morria Machado de Assis, quando Graciliano Ramos era um adolescente de 16 anos e Monteiro Lobato um jovem advogado de 26. Em 1918 morria Olavo Bilac aos 53 anos, enquanto Vinícius completava 6 anos e Manuel Bandeira, 32. Penso nesses detalhes, embora seja difícil comparar. Nossos maiores escritores viveram em uma época em que a maior parte da população brasileira era analfabeta. Hoje também vivemos em tempos nada alvissareiros: nosso público “alvo”, os adolescentes a que aludiu Xavier, com raras exceções, não gostam de ler nem de música que preste. Pergunte a um adolescente quem foi Tom Jobim ou Manuel Bandeira ou quem é Chico Buarque. Ele rirá de você e, se já tiver ouvido falar de algum deles, dirá que é “coisa de velho” ou de “tiozinho”, para usar uma gíria jovem. Jovem gosta de “funk”, dos chamados “MC’s”, de hip hop ou de rock pesado. Ler? Nem encarte de CD, porque as músicas podem ser baixadas da Internet. Ler jornais, revistas, histórias em quadrinhos ou livros, então... nem pensar. Por falar em pensar, hoje pensar nem é preciso: petistas e tucanos estragaram a educação brasileira com uma excrescência importada de nome “progressão continuada”, que é uma política descarada de aprovar os alunos das escolas públicas automaticamente, quer tenham conhecimento quer não. Assim, muitos hoje terminam o Ensino Médio sem sequer ler direito. Depois vão estudar em faculdades caça-níqueis, as “Uniesquinas” que existem às centenas no Brasil inteiro. Alguns críticos torcem o nariz para a saga “Crepúsculo” ou “Harry Potter” ou mesmo para os livros de Paulo Coelho. Queria eu que todos os adolescentes do Brasil – de norte a sul, de nordeste a centro-oeste – devorassem os livros da série “Crepúsculo”, os sete livros da saga “Harry Potter” ou lessem qualquer um dos livros de Paulo Coelho! A leitura hoje é uma atividade elitista.

          Resumindo todas essas longas reflexões, creio que vivemos em tempos difíceis, não só no Brasil como no mundo todo. Nossa juventude está desencontrada. Quem não é alienado está preocupado com a tecnologia e com o mercado de trabalho. A poesia é para quem desenvolveu um senso estético que a maioria dos jovens ainda não desenvolveu. A preocupação do Xavier é justíssima, mas já que parece não ser pragmaticamente possível que um adolescente frequente a UBT, talvez a alternativa mais viável seja investir no público mais maduro, acima dos vinte ou trinta (os nascidos nos anos 70 e 80, portanto) na expectativa de que os atuais adolescentes amadureçam e quando forem balzaquianos ou quarentões, possam perpetuar o nosso ciclo, mesmo tímido, de renovação. Agora... que a UBT tem uma estrutura que afugenta os jovens... ah, isso tem... e vou falar sobre isso em outro artigo (este já está longo demais), pensando na minha experiência de dezesseis anos como professor que já lidou com muitos adolescentes de todo tipo de formação e condição.

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NOTA = Pedro Mello, autor do magnífico texto acima, além de "Magnífico Trovador" por Nova Friburgo é Professor de Língua Portuguesa, daí a abordagem que começa pela renovação na Trova e adentra pelo terreno da reforma educacional.