(texto de Pedro Mello - 19.12.2013)

     Ser trovador é difícil. Não que seja difícil o ato de compor trovas. Como disse certa vez o trovador Eno Teodoro Wanke, um adulto alfabetizado pode aprender a metrificar e compor uma quadra de sete sílabas, mesmo que não produza uma grande obra de arte.

     A dificuldade de ser trovador é maior, pois envolve as emoções e a afetividade: a grande dificuldade de ser trova...dor é a militância no movimento trovista, é o envolvimento com os concursos de trova e suas festas.

     Ser trovador é mais do que compor trovas solitariamente e enviá-las para os certames do gênero e, eventualmente, lograr uma premiação. Ser trovador envolve o congraçamento com os nossos pares, com os nossos irmãos de sonhos, a quem, inclusive, tratamos de “irmãos trovadores”.

     Não estou dizendo que seja difícil conviver com os outros trovadores. Atritos no meio do caminho podem acontecer, mas são irrelevantes diante de uma causa maior. A dificuldade de ser trovador é justamente pelo motivo oposto: nós nos apegamos demais aos nossos amigos.

     Não estou propondo o desapego, mas constato que, sendo o trovismo um movimento de pessoas maduras, nós perdemos amigos numa velocidade e constância mais acelerada do que em nossas famílias de sangue. Explico-me: uma família é um círculo razoavelmente reduzido, pelo menos em termos essencialmente numéricos. Temos pai, mãe, irmãos, cônjuge, filhos, tios e primos. Entretanto, dependendo do distanciamento que temos em relação a um determinado parente, não criamos vínculos afetivos tão intensos quanto criamos com amigos. Afinal, família a gente não escolhe e os amigos, sim.

     Comparo a trova ao que o filósofo grego Platão chamou de “mundo das ideias”. A trova é uma espécie de refúgio espiritual para os trovadores. Os finais de semana das festas de entrega de prêmios são ocasiões em que nos desligamos das coisas prosaicas de nosso dia-a-dia, de nossas rotinas, de nossos problemas, pegamos a estrada e vamos encontrar nossos amigos. É algo mágico e muito especial. Assim, de modo natural e espontâneo, vamos criando laços afetivos com pessoas que têm muito em comum conosco. São finais de semana tão encantadores, que até ficamos tristes com o retorno para casa, quando a realidade nos assalta com violência e nos puxa de volta para a rotina.

     Graças à trova, conhecemos pessoas interessantes, bonitas, agradáveis... com algumas os nossos laços de amizade se estreitam mais... mas... sempre tem um “mas”. Diferente dos amigos de faculdade, por exemplo, que têm a mesma faixa etária, e se tornam amigos durante a juventude, na trova a faixa etária é mais elevada. Não temos como fazer uma estatística, mas na trova são poucas as pessoas com menos de 60 anos. A maioria tem 60 para cima. Vários têm mais de 70 e outros até na casa dos 80. Dessa forma, todos os anos nós perdemos alguém de nossas fileiras. Um adoece de repente, outro desenvolve uma enfermidade e sucumbe após um tempo, outro morre em um acidente... seja qual for a desculpa da “Magra”, a “Indesejada das gentes”, ela sempre aparece com o seu indefectível gadanho para ceifar um irmão nosso.

     À medida que os anos vão passando, a gente vai perdendo um número expressivo de amigos. Cada vez que um irmão trovador vai embora, o trovismo vai ficando mais triste, porque são lacunas de amizade que se abrem e não vão fechar nunca. Certa vez, uma trovadora disse que “dava vontade de largar tudo”. Eu entendo perfeitamente essa sensação. A trova nos traz grandes alegrias, mas também nos traz tristezas. É difícil manter a balança em equilíbrio.

     De minha parte, sou relativamente novo no movimento trovista. Conheci a UBT em 1997 e a partir de 1998 fui conhecendo trovadores de vários recantos do Brasil, estreitando laços, trocando cartas, “e-mails”, telefonemas... e quando alguns vão embora, a sensação é terrivelmente dolorosa. Vou contar apenas alguns:

• José Maria Machado de Araújo (2004)
• Newton Meyer de Azevedo (2006)
• Waldir Neves (2007)
• Nádia Huguenin (2008)
• Lavínio Gomes de Almeida (2009)
• Miguel Russowsky (2009)
• Aloísio Alves da Costa (2010)
• Milton Nunes Loureiro (2011)
• Analice Feitoza de Lima (2012)
• Francisco Macedo (2012)
• João Freire Filho (2012)
• Hermoclydes Siqueira Franco (2012)
• Ademar Macedo (2013)
• Izo Goldman (2013)
• Rodolpho Abbud (2013)
• Marina Bruna (2013)

     A lista é maior. Aqui eu cito apenas trovadores com quem eu tive maior contato, com quem eu cheguei a ter mais envolvimento, trocando correspondência, telefonemas, e-mails ou visitando em seus lares. Vários outros, muito simpáticos, de quem ganhei livros ou uma conversa amiga durante festas de Jogos Florais, vi poucas vezes. Com outros apenas troquei correspondência, sem sequer nos conhecermos pessoalmente. De certa maneira, também me deixaram saudade:

• Aurora Spinelli Crotti (1999)
• Maria Dolores Paixão Lopes (2001)
• Eno Teodoro Wanke (2001)
• Albertina Moreira Pedro (2001)
• Tufik Miled (2001)
• Aloísio Chaves de Moura (2001)
• Aurora Pierri Artese (2003)
• Latour Aroeira (2004)
• Marisol (2005)
• Santos Teodósio, o Brumadinho (2006)
• Lucy Sother Alencar da Rocha (2006)
• Edmilson Ferreira de Macedo (2008)
• Alonso Rocha (2011)

     Devo ter omitido algum nome, é claro. Percalços da memória. Certamente, cada um que ler essas minhas impressões também terá o seu quinhão de perdas. Em alguns casos, os nomes serão os mesmos, pois o trovismo é uma grande fraternidade.

     Cada irmão que vai embora deixa a nossa vida mais triste. No meu caso em particular, como ainda tenho menos de 40 anos, se a “Magra” não chegar cedo e viver a média de vida do brasileiro, ainda terei muitas perdas pela frente. Isso se o meu lugar na fila não estiver na dianteira e eu não saiba disso.

     Mas é melhor não pensar muito nisso. Cada irmão que foi embora queria que o movimento continuasse. E nós, que ficamos aqui, temos a missão de manter viva a chama da trova. Mas que dói, dói. E como dói...