40 ANOS DE UM LIVRO FUNDAMENTAL
(em 28.05.2012 - texto do Prof. Pedro Mello - UBT São Paulo)

 

            Já estamos quase na metade de 2012 e até agora não vi nenhum artigo, notícia ou menção a uma efeméride que nenhum trovador deveria deixar passar em branco: os 40 anos da publicação do livro “A Trova no Brasil – História e Antologia”, da autoria de Aparício Fernandes (1934-1996).

            Não sei o porquê desse esquecimento, mas de minha parte espero dar uma contribuição no sentido de que a obra de Aparício não seja esquecida, principalmente para os que ainda estão adentrando o movimento trovista. O livro “A Trova no Brasil” está completando 40 anos de existência e é referência obrigatória para quem quiser conhecer, de verdade, o movimento em torno da trova.

           

 
               Muitos livros de trova e sobre a trova foram publicados ao longo de várias décadas de cultivo sistemático e institucionalização da trova, mas nenhum deles é tão importante e seminal para os amantes da trova quanto o livro de Aparício. Talvez só a tetralogia de Eno Teodoro Wanke lhe ombreie a importância e chegue a superá-lo em determinados quesitos. Mas, no cômputo geral, o livro de Aparício é imbatível e o melhor livro sobre Trova que existe. Desse modo, todos os que militam pela trova e pela sua divulgação deveriam ter um exemplar dele em suas estantes ou, pelo menos, conhecê-lo, já que é um livro esgotado e que só teve uma edição.

            Apesar do projeto caro (trata-se de um considerável volume de 380 páginas!), Aparício conseguiu editá-lo sem grandes dificuldades e legou à história do trovismo um documento mais do que precioso e é isso que quero comentar hoje.

            Na primeira parte, Aparício faz um breve relato, definindo o que é a trova, como teve início na década de 50 o movimento que veio a ser chamado de “trovismo” e a penetração que o movimento conseguiu ao longo da década de 60. Conta casos pitorescos envolvendo associados e histórias importantes sobre os bastidores do movimento. Ilustrado com várias fotos de pessoas e de eventos, a primeira parte do livro constitui leitura até hoje indispensável para quem quiser deslindar os “anos áureos” do trovismo brasileiro. Nesse sentido, só o livro de Eno Teodoro Wanke, lançado 4 anos depois, “O Trovismo”, consegue se igualar ao trabalho de Aparício, superando-o em alguns aspectos, inclusive elencando e analisando mais pormenores de interesse histórico sobre o movimento. O livro de Aparício, diferente do livro de Eno, é mais factual, atendo-se a relatar fatos, historicamente. O livro de Eno possui, por sua vez, um caráter mais analítico, o que, de certa maneira, contribui para complementar o livro de Aparício.

            Diferente dos interesses de Eno, porém, o grande foco de Aparício era divulgar o trabalho dos trovadores, por meio de uma antologia de trovas. Desse modo, na segunda parte, Aparício publicou 3.000 trovas de diversos autores de língua portuguesa, separando-as em três partes: LÍRICAS, FILOSÓFICAS e HUMORÍSTICAS, 1.000 de cada. Além das contribuições de cada autor, Aparício também colheu trovas entre os resultados dos concursos de trovas realizados até então e nisso reside o maior mérito da obras. Escrito em 1971 para ser publicado em 1972, a obra de Aparício veio a luz quando os Jogos Florais de Nova Friburgo haviam se consolidado como o concurso de trovas mais importante do país, seguido de perto por outros Jogos Florais que marcaram aquela época: Pouso Alegre, Juiz de Fora e Porto Alegre, só para citarmos alguns exemplos. Quando Aparício escreveu “A Trova no Brasil”, os trovadores já haviam testemunhado o surgimento e a beleza das seguintes maravilhas: 

Ao beijar a tua mão,
que o destino não me deu,
tenho a estranha sensação
de estar roubando o que é meu!
(Durval Mendonça, 1º. lugar nos V Jogos Florais de Nova Friburgo, RJ, em 1964)
 
Neste mundo que nos cansa,
tanta maldade se vê,
que a gente tem esperança
mas já nem sabe de quê!
(José Maria Machado de Araújo, 1º. lugar nos I Jogos Florais de Pouso Alegre, MG, 1961)
 
As crianças, ao falar,
inventam frases tão belas,
que a gente fica a pensar
que é Deus quem fala por elas!
(José Maria Machado de Araújo, 1º. lugar nos I Jogos Florais de Juiz de Fora, MG, 1962)
 
Num tempo em que tanta guerra
enche o mundo de terror,
benditos os que na terra
semeiam versos de amor!
(A. A. de Assis, 1º. lugar nos I Jogos Florais de Corumbá, MS, 1968)

            Esses e outros grandes achados da trova haviam sido premiados recentemente em Jogos Florais quando Aparício preparou seu livro e coligiu na segunda parte uma “montanha” de 3.000 trovas, incluindo estas que estão acima, além de outras dos seus respectivos autores.

            Quando Aparício organizou seu livro, Nova Friburgo já havia concedido o título de “Magnífico Trovador” a seis trovadores do Rio de Janeiro: Anis Murad (1962), Colbert Rangel Coelho (1962), Edgard Barcellos Cerqueira (1963), Durval Mendonça (1964), Carlos Guimarães (Lirismo, 1968; humorismo, 1971) e Joubert de Araújo Silva (Lirismo, 1971; Humorismo, 1970). Todos esses trovadores têm trovas suas publicadas no livro de Aparício, além de outros, quer magníficos ou não, que figuram no livro com excelentes amostras do que o movimento prometia para o futuro: Waldir Neves, Eno Teodoro Wanke, Nydia Yaggi Martins, Aloísio Alves da Costa, Orlando Brito, Vasco de Castro Lima, Paulo Emílio Pinto, Maria Thereza Cavalheiro, entre muitos outros, que abrilhantam o livro e lhe dão um lustro memorável.

            Já existiam seções da UBT (fundada apenas 6 anos antes da publicação do livro) no Rio de Janeiro, São Paulo, Porto Alegre, Pouso Alegre, Belo Horizonte (entre tantas outras delegacias e seções), cujos associados figuram no livro com pelo menos uma trova.

            Todos esses aspectos tornam o livro de Aparício um notável testemunho do que foram os anos áureos do trovismo, dos grandes trovadores já consagrados e dos que viriam a se consagrar no futuro. A TROVA NO BRASIL é, sem dúvida, o melhor e mais importante livro sobre trova que já foi publicado e todos aqueles que se interessam pela trova e pela história do seu movimento precisam conhecer um pouco dessa história tão bonita e que, infeliz e injustamente, está meio esquecida.
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Prof. Pedro Mello detém o título de
"Magnífico Trovador" por Nova Friburgo desde 2010.