VINTE E OITO SÍLABAS!

     A maior parte das trovas possui um sujeito claramente identificável, embora nem sempre morfologicamente expresso. Na maior parte das vezes, quem canta sua dor é uma voz masculina, chorando seu desgosto por causa de uma mulher, como na conhecidíssima trova de João Rangel Coelho:

Aérea, fluida, de gaze,
corpo volátil de essência...
Sua presença era quase
como se fosse uma ausência!

     Mesmo quando não lamenta, a mulher é uma presença constante, como nesta belíssima trova de Sérgio Bernardo:

Diz: “Talvez...” E, ao dar-me as costas,
nem suponho o que ela quer,
pois há um mundo de respostas
no “Talvez” de uma mulher!

     Nestes dois casos é evidente que o eu-lírico é masculino. Na trova de João Rangel Coelho, as desinências de feminino nos dois primeiros substantivos do primeiro verso (aére-a, fluid-a) “denunciam” que o eu-lírico é masculino e que fala de uma mulher. Na segunda trova, o próprio contexto do que age e faz uma mulher, segundo o eu-lírico, mostra que se trata de um homem falando da mulher...

     Nem sempre, porém, essa distinção é possível. Olhemos com bastante atenção as seguintes joias da lavra de José Ouverney:

Duas culpas, um pecado
e um remorso a nos doer:
você – que escolheu errado;
eu – que nem pude escolher...

Baú velho, tampo torto,
cartas e fotos mofando...
- Refúgio de um sonho morto
que eu vivo ressuscitando!...

     Conhecemos o José Ouverney pessoalmente e isso nos induz a pensar no eu-lírico masculino. No entanto, que elemento há em ambas as trovas que nos impediria de lhes atribuirmos uma autoria feminina, caso não conhecêssemos o autor?  Nenhum. As trovas poderiam ter sido feitas por uma mulher, tranquilamente. Uma mulher que lamenta a escolha errada do homem. Uma mulher que guarda cartas e fotos de um amado cujo amor não existe... É um homem que faz estas reflexões. Mas poderia ser uma mulher, não poderia?
II
     Mas há um tipo de trova que chama a atenção pelo seu ímpeto. Há trovas cuja feminilidade transborda. A mulher está ali, nos 28 versos. Cada sílaba transpira a emoção feminina, de um modo que homem algum poderia sentir. Essa feminilidade lateja na trova de Eugênia Maria Rodrigues:

Venha com suas malícias,
do jeitinho que quiser,
ao garimpo das carícias
do meu corpo de mulher!...

     E, entre as grandes trovadoras que estão em nosso convívio, quem melhor do que Divenei Boseli para mostrar ao mundo o que sente uma mulher?  O coração feminino palpita em cada sílaba da trova a seguir:

Uma lágrima sequer,
eu vi no adeus... nem depois.
Não faz mal... eu sou mulher,
posso chorar por nós dois!

     Na trova seguinte, o “cheiro” da traição masculina é sentido no ar pela sensibilidade da mulher:

Enquanto eu choro e tu dormes,
com teus sonhos traiçoeiros,
cabem distâncias enormes
no vão de dois travesseiros...

     É a mulher quem se cansa das repetidas traições e põe um ponto final aos deslizes do parceiro, nem que ele, em vão, tente cobri-la de presentes:

Podes guardar teus agrados
para dar aos teus iguais,
que eu juro, por meus pecados,
que a mim não me agradas mais!

     É, ainda, a mulher quem sente as falsas promessas que o homem murmura ao seu ouvido:

Hoje, em que braços deliras,
em que outro ouvido murmuras
as verdadeiras mentiras
que me disseste por juras?...

     Eis a figura da Mulher, em 28 sílabas de puro encantamento!

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Prof. Pedro Mello, 30 anos de pura explosão de emoção e talento, é integrante ativo da UBT São Paulo/SP e ativo colaborador deste site.