Octavio Roggiero Neto

Fala por mim o meu calo
do silêncio que trabalho.
aprenda-me do que calo:
quanto mais falo mais falho.

Quando empina sua pipa,
esvaziando o carretel,
o menino participa
da imensidade do céu.

A vida é mesmo uma festa,
viver é tudo de bom!
sim, mas só que estamos nesta
na condição de garçom.

Este olhar dela me cisma:
tem um quê de não sei quê...
rebrilhando, é como um prisma
a hipnotizar quem o vê.

Olhos abertos à custo
e a vida nos chega turva;
depois do cochilo, o susto
e o trem sumindo na curva.

Um dia de azul pra nós,
os cansados de cansaços,
pra esquecermos de ser sós,
no aconchego dos abraços.

Sem pressa, sigo na boa.
por que sentir-me atrasado?
vai nessa, como quem voa,
que sou mais ir avoado!

Sim, palavras tem à beça
e cai sempre no embaraço
o ostentador que tropeça
na língua maior que o braço

Poeta, médico e louco:
reza o ditado banal
que dos três temos um pouco;
discordo só do avental...

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